domingo, 5 de julho de 2009

Cerimônia Final

Senhoras e Senhores, como uma das quatro partes desse coletivo literário, sinto-me na obrigação de deixar aqui o registro de nosso fim. Algumas mudanças aconteceram durante esse tempo que passou, a vida nos deu cursos diferentes para seguir e eis que, mesmo tentando prosseguir com nosso sonho, pois como disse Lennon, certa vez, o sonho não acabou – e nunca acaba – chega a hora de, por hora, colocarmos um ponto final. Esse pequeno circulo que simboliza o fim.

Agradecemos aos nossos leitores por compartilhar seu tempo pela leitura de nossas ficções e também ao público que assistiu as três bem sucedidas apresentações cômicas da Produções Quatro Patacas realizadas no Anfiteatro da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp em Araraquara.

Para nós, todo o acontecido nesse mais de um ano com os Quatro Patacas é uma sensação inexplicável, um sonho que se realiza. Para aqueles que nos assistiram no anfiteatro, saibam que nunca esqueceremos os aplausos que recebemos, de pé, ovacionados por nossas brincadeiras, trazendo um pouco de humor para um meio acadêmico e supostamente sério.

Encerramos nossas atividades com uma história curta mas bem sucedida, embora transbordando a sensação de que gostaríamos de fazer mais.

Dessa maneira, abaixo, a lista de onde está cada pataca e um resumo de sua produção atual.


Arthur Malaspina: Formado em Letras pela Fcl – Unesp, em Araraquara, retornou a sua cidade, Bauru, onde está, atualmente trabalhando como professor. Mantém o blog Han Atirou Primeiro, desatualizado há muito tempo por sua ausência na internet. Também conectado no twitter no endereço @arthurskywalker.


Leandro Durazzo: Cursou Pós-Graduação em estudos literários em Recife. Ao lado de Thiago Augusto Corrêa fundou o blog literário Clube Dos Corações Solitários do Sargento Pimenta. Nas próprias palavras de Leandro, originado dos defundos dos Quatro Patacas. Durazzo também está conectado no twitter, pelo @durazzo.

Natália Scartezini: Finalizou sua gradução em ciências sociais e como era nossa querida mascote nas apresentações, fez sua estréia e sua despedida nos palcos dos Patacas na Terceira Apresentação. Com grandes momentos cômicos.

Thiago Augusto Corrêa: Ainda graduando em Letras, concentra-se suas energias no blog cultural O Que Dr. House Diria? realizando análises e críticas sobre filmes, séries, livros e peças teatrais. Ao lado de Leandro Durazzo mantém o blog literário O Clube Dos Corações Solitários do Sargento Pimenta. Também conectado no twitter no endereço @tdmundomente. Além de ser redator e crítico do site Vortex Cultural.

Vinício dos Santos: Formado em letras, pós graduando em estudos lingüísticos, realiza aulas de português e redação. Continua escrevendo sua trilogia de aventura e escreveu resenhas cinematográficas em seu blog O Jardim Dos Gatos Teimosos e fundou, um blog futebolístico chamando O Importante é Os Três Pontos que não foi para frente. Hoje é o dono do blog de humor Puxa Cachorra. Também presente no twitter no endereço @vinisan.

Com isso, as belas páginas da história do grupo patacas se fecham, se não por definitivo, ao menos por um tempo longo.

Novamente este escritor agradece a todos pela leitura e pelos risos em nossas apresentações. Pedindo que não deixem de acompanhar o blog individual de cada um, bem como, se for interessante, segui-los no Twitter.


Nosso muito obrigado e que fechem as cortinas.

Excelsior,
Thiago Augusto Corrêa

quarta-feira, 18 de março de 2009

Como é fácil, para um homem bonito
e mentiroso,
imprimir suas formas na cera de que
são feitos os corações femininos.

(Shakespeare, Noite de Reis)


Não que eu seja bonito. Nem que eu seja eu, ademais – porque, afinal, sou um personagem. Um narrador. Uma voz semi-onisciente que tudo pode, enquanto não a pegam para Cristo. Depois de crucificado, nem mesmo Ele transformava água em vinho, e só conseguiu fazer milagre de novo depois de morrer bem morrido.

Ressuscitou.

Meio que como forma de ir e vir e recomeçar e de encontrar na mudança um ponto e vírgula, a pausa prosódica de que é feita a vida. Mas isso mostra o quão ruim eu sou, quão mal narrador: só falo nisso, só disso em isso e nunca mudo de assunto. São sempre mots sobre girar o mundo, a rodar, de um ponto a outro. Sem parar nunca. Como se meus textos fossem todos escritos num texto só, e meus pontos finais não passassem de reticências...

Pausa prosódica, eu disse, pausa de pausa de prosa. Pausa de rota. Pausadamente escolher um lugar pra parar, um pouco, e tomar um ar, um fôlego. Pausa da mente pousada em algum ramo de cerejeira, sobre uma flor-de-lótus tal borboleta. Ah, meu lindo passarinho, não viajes mais. Viagens terminam quando amor tem início, E até filho de homem sábio sabe disso.

Que ‘stou apaixonado? Nada. Que minto? Menos. Que é isso, então?

Texto.

segunda-feira, 16 de março de 2009

... antagonias

Então, permaneci. Com o relógio em meu pulso esquerdo, para saber exatamente as horas em que tudo tinha se acabado, em que o médico declarou o fim.

Minotauro estava morto com vermes a lhe cobrir, como um manto. A galinha era a canja vendida no bar da esquina. Dos tiros só senti nos pés o que sobrou de seus projéteis.

E a sala inundada de sangue era de um poeta que havia cortado os pulsos.

Então, sentei. No meio das ruínas, sentei. No frio do apocalipse, sentei. Sem ninguém por perto, só o vazio que me possuía. O abismo que me olhava e que eu olhava de volta.


Tudo era nada. Ruídos e ruinas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

"Vamos começar colocando um ponto final
pelo menos já é um sinal
de que tudo na vida tem fim"



Maybe. Estou perdido no tempo e no espaço. Atrasado. Virei à esquerda no labirinto do minotauro e saí na Cidade de Deus. Tinha uma galinha correndo em meio a tiroteio. Fernando Meirelles dirigia e tudo isso vinha com sanção de Santo Agostinho. Com Sansão não, que ele saiu pra cortar os cabelos. E Rimbaud, os pulsos - mesmo que não tenha sido

assim.

Fim

segunda-feira, 9 de março de 2009

O Biógrafo

O biógrafo chegou na hora combinada, o céu estava pálido, encoberto de nuvens que enriqueceriam os relatos dessa tristeza. Eu estava sentado em minha poltrona preferida tomando café quando, de leve, bateu na porta. Com a voz moderada, o convidei para entrar e após um apertar de mãos, sentou-se na poltrona à minha frente.

Estou doente, mal consigo dormir e, devido a isso, tenho dores nas costas. Faço questão que anote em seus cadernos que o passado é o melhor de mim, sem sombra de dúvidas. Mas desde o início, esclareço que não fora a vida que me envelheceu. Mas sim a prisão de minhas engrenagens. Balas que nos atingem mas que não nos matam, apenas nos paralisam.

O rapaz anotava em silêncio minhas frases. Ofereci uma xícara de café que ele negou. Então lhe perguntei que homem honrado nega uma xícara de café e, pensando novamente, ele pediu com muito açúcar.

Devido a incapacidade de uma de minhas pernas, pedi que ele fosse até o lado direito do escritório e me trouxesse a coleção vermelha. Livros antigos de minha escrita. Percebo belas poesias, prosas e canções que escrevi. Hoje - e apontei minha escrivaninha - tudo que escrevo são cinzas, o que faço são espinhos, sem rosas.

É como comer damascos e não mais sentir seu sabor, plantar cenouras e não ganhar nenhum plantio para o almoço. Vejo minhas mãos, pensando se estão amaldiçoadas e se sou capaz de desfazer qualquer feitiço colocado sob elas.

Minha fala é longa e temo cansar meu biografo. Ele continua silencioso, mas é educado e cortes. Muitas vezes comenta meus fatos e parece, de verdade, compreender tudo que digo. Sugiro, então, que caminhemos pela casa, mas sua ajuda é necessária para minha locomoção.

Nessa casa obtive tantas respostas certas e hoje não mais encontro a porta em que enxáguo os dentes. Me perco entre risos no escuro que me causam calafrios, não me fazem rir.

Seu caderno fechou-se. Ele parou de anotar perguntando-me se quero fazer uma pausa. Que pausa necessito em minha vida tão agitada, lhe pergunto. Talvez tenha ele visto emoção em meus olhos. Caminhar sempre me emocionou. Os pedaços dessa casa são como colchas de retalho repleta de memórias.

Chovia lá fora, meu tempo preferido, evocando em mim as memórias mais tristes. Falei de Manuela e Teresa, mas não derramei lágrima se quer, sou velho demais para demonstrar esse tipo de sentimento amoroso. Mas também lhe contei sobre meu amor por tempestades. Gosto de observar a destruição que alastra e limpa, reconstruindo e renascendo as cinzas que sobrou.

E volto a lembrar de mim, cinzas e espinhos, esperando a chance de não mais ser o que sou, renascer de sombras nunca vistas antes. Como Ícaro que sonhava ter asas e voar.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Ode Noturna nº 1

Desacordado rumo trôpego até o local determinado,
pensando carinhosamente no desacordo
que temos entre nós.
Acordado permaneceria imóvel
como tenho feito sempre.

Cheguei, chegaste, vínhamos nos encontrar
no nosso desacordo, não despertos,
sorridentes de um sorriso daqueles
mais sombrios que a noite escura.
Parti, partiste, fomos embora,
eu de ti, tu de mim, tudo se restabeleceu.

Como tenho feito sempre,
acordado permaneci imóvel,
diante de ti, que passavas sonolenta,
e num daqueles nossos desacordos,
não me notavas,
logo eu, teu velho parceiro de noites de sono.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Águas Lamacentas

Na chuva, medo e desespero se tornam maiores. Todos são iguais na lama, o crente e o desertor.
A bala que acertou-me o braço era caso de vida ou morte. Por isso a roupa cortada diminuindo a circulação sanguínea e o canivete dentro de minhas carnes esperando a bala pular.

Eles estavam certos, sem dúvida. Não é o pecado da dor, da ferida exposta que mais machuca. O corpo se acostuma nos primeiros minutos e o frio da chuva ajudam a esquecer. É a bala na lama que não apaga as memórias. O homem que puxou o gatilho inesperado, a traição daquele que nem espera sua fronte estar de frente com o seu inimigo, para premer o gatilho com violência.

Longe de mim fiquei, mas consciente. A vida insistia em passar por mim. A chuva queria sufocar-me com sua salvação.

A bala me encarava brilhando naquela noite escura, testemunha de minha queda, de meu julgamento. As pernas pareciam funcionar, apenas paralisadas pelo medo. Portanto, levantei.

Foram dois. Dois além de mim. Mortos pelo mesmo traidor, pelo mesmo gatilho. Eu poderia ajoelhar-me e fazer uma prece? Perguntar ao pai qual nossos pecados? Bobagem, Deus. Seu silêncio é mais enlouquecedor do que o sangue que escorre de minha chaga.

Então, caminhei. Algumas milhas até a chuva cessar. A terra fofa, águas lamacentas, nem santos nem pecadores, apenas um tiro eu precisaria. Uma misericórdia para o amém.

Lembrei-me de meu pai. Nunca fazer com os outros o que fizeram com você. Um conselho tão distante que nem mais me lembrava de suas feições. Preso em tantos pensamentos, nessa hora morri.

Foi um zunido e meu peito saindo para fora. O regresso do mesmo traidor. Meus olhos cegos demais para reconhecê-lo. Minha boca muito seca para qualquer som.

A queda lenta de meu corpo. Joelhos e face no chão. O gosto da lama dentro de mim. Os pés do traidor. O cano que tocou minha cabeça, meu sangue escorrendo com as águas, a última imagem que vi.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

cinzas da guerra

- Eu vou lá fora!

E, dizendo isso, Cap levantou do chão atrás da mesa tombada, bombardeada por seja lá o que fosse aquilo. Sarge interveio:

- Não, Cap, fica parado. 'Tá um caos lá fora, o senhor viu. As esquinas foram tomadas, os suprimentos saqueados e nossa guarnição completamente devorada! Aqueles caras são uns animais. Aquela... aquela turba!

- E o que você quer que eu faça, ã? O que você quer? Que eu fique parado aqui, vendo meus meninos serem fuzilados pelas armas de última geração daquele porco nazista? É isso que você quer, Sarge, é?!?

- Não, senhor, senhor! Claro que não, mas a iluminação da estrada acabou de ser cortada, e eles têm aquelas coisas verdes que brilham e vêem no escuro.

- Aqueles desgraçados, estão rindo de nossa companhia, Sarge, estão rindo. Eu vou lá!

Sarge não teve tempo de impedir. Cap foi. Andou até o meio da encruzilhada, jogou sua espada de Conan no chão, largou a cerveja Nova Schin (1 real, gelada), agarrou um Batman pelo colarinho e, em voz alta, disse:

- Agora, seus filhosdasputas, agora vocês vão ver quem é que tem a maior serpentina desse carnaval!

E fez o Homem-Morcego comer confete até pelo nariz