quinta-feira, 19 de julho de 2007

Beatriz

I

Muito bem, vamos começar. Tenho como explicar de uma forma compreensível? Essa arma em minha mão? Talvez ela seja a única coisa proposital.

- Rubem, não faça isso. Você sabe como desaprovo totalmente – Beatriz usava seu corpo como forma de se sentir querida. Eu sabia que ela chegara ao ato uma vez, apenas. Rubem dizia que ela ainda cheirava a virgem, e que, seminua, descobrira o labirinto de seu próprio corpo.

- Não negue. Você a deseja cada vez que ela sorri o sorriso dissimulado, se desfazendo das roupas e mostrando o corpo – E Rubem esbravejava sua fúria característica ao olhar para mim.

- Não, Rubem, não nego. Você quer me acusar do quê?

- De hipócrita, é claro, um maldito hipócrita. Você a olha, nua, sente o instinto se ascender, no entanto se ela não se deita com você, você esbraveja que a santa se tornou pecadora – E falava como um ator em pleno palco.

- Nunca me deitei com ela, e você sabe... – me interrompeu – Desejando-a nas carnes e nos dentes. Quer saber o que ela diz enquanto o desejo se consome? Ou ainda espera quebrar sua falsa moral?

Me levantei, atônito. Rubem me irritava nessa hora. Sua fala, o jeito de andar, parecendo um teatro de horrores, um homem de quem não sei o que esperar. Gritei – Corte o maldito drama. É de seu prazer me irritar? – e nessa hora, Rubem se excitava com seu prazer hostil.

- Deixemos algo bem claro, meu caro, todas essas desculpas são para não admitir que no fim você seja o pior. Brincando com sua moral santa, e horas fazendo jogos.


II

Beatriz e eu fomos amantes, sem amor nenhum. Com o passar do tempo cai em sua armadilha, ela me fez de seu brinquedo. Quando me queria, apontava-me os caminhos, quando não, nem gestos, olhares ou palavras trocava. Fria, difusa e incendiária ao mesmo tempo. Sem nunca me mostrar o final de seu jogo.

Quando se entregou a primeira vez a um homem, quase desconhecido, me disse duas palavras: “Já foi”. E sei que depois se entregou a ele diversas vezes.

- Eu gostei da resposta, você entende quando digo que as mulheres nascem puras e depois brincam com a gramática? Trocando a consoante R pelo T? Pense naquele lindo corpo, ela não é mais uma garota, não?

- Não, Rubem, não.

- E o que espera? Avance, uive para a lua, continue o que o outro iniciou, será assim para o resto da vida, na busca pela felicidade passageira – Rubem vibrava. Talvez a vida para ele fosse sempre um protesto, era um vírus de si mesmo, crítico do mundo com afinco. – Somos lobos no cio, lobos no cio. – Para Rubem a vida era intensa, como um palco mentiroso.


III

Ela tinha diferenças, eu pensava. Um desvio do senso comum. Porém, se apaixonou por uma beleza, e fez surgir o amor enquanto ela o beijava. Ela desejava mais a mim. Ele era o amor, eu o sexo. E quando ele ficou distante, sua vida tão vazia encontrou apego nos meus braços.

Ela esperou um tempo até tocar meus lábios, depois cada vez mais próxima, abrindo espaço para seus artifícios. Eu, como amante, notei um dia que ela não mais me pertencia. Seu corpo seria de outro.


IV

Beatriz. A linda e bela Beatriz. O corpo, seu único presente. Nudez inculta, sua majestade. Entregou-se a mim sem rodeios e mazelas. Rubem foi mais além nessa hora.

- Todas as mulheres: putas ou filhas da puta. – e antes de matá-la, acendeu um cigarro para fazer pose blasé.




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