sexta-feira, 27 de julho de 2007

Confissões de um escriturário

"O grande escândalo
sou eu aqui, só."
(Caetano Veloso, Escândalo)

"de tanto quebrar a cara
e juntar os cacos
viciei-me em puzzle"
(Luiz Vitor Martinello, De Quebra)

Todo escritor sonha em ter um mestre, apontando caminhos e dizendo-lhe o certo e o errado. Ou ainda um homem brilhante e severo, com doces frases de efeito em sua língua. "Você não se tornará um bom escritor se não deixar sua alma em cada uma de suas palavras".

É a visão romântica que temos de poetas e escritores. O frio invernal que adentra pela janela aberta, a penumbra que se quebra no pequeno abajur em cima da mesa. A velha máquina de escrever com um vício ao lado, seja um copo de álcool ou cigarros.

É um sonho de criança o mentor que nos guie, mestre que ensina seu pupilo. Confesso que busquei um mestre, grande poeta, amigo e leitor de minhas primeiras palavras com atenção. É dele uma das epígrafes que abre o texto. Gosto desse pequeno poema, pois ao lê-lo penso na arte poética.

Nenhum escritor é plano. Somos loucos esquizofrênicos que usam o artifício das palavras - palavras, senhores - ao nosso prazer. Somos uma mentira alimentada de palavras, que criam um mundo oculto, para possuirmos outros mortais que nos darão coroas de lírio ao chorar com nossas palavras. É por esse sentimento único que nosso egoísmo nos impede de parar.

Somente quem tem o caos dentro de si pode dar à luz uma estrela bailarina (Friedrich Nietzsche). Temos nas mãos tantas possibilidades infinitas que esse peso corrói a alma pouco a pouco. Somos fragmentos em cada verso, um jogo de espelhos entre o que somos e o que nunca seremos, o que nos magoa, o que não poderemos ter.

O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente. (Fernando Pessoa, Autopsicografia). Autopsicografia me incomoda até hoje. Recuso-me a acreditar que sou uma farsa travestida com roupas de imperador. Assumir que minhas palavras são talhadas com precisão para o leitor, é assumir meu papel de escravo. Porém, o que é o poeta se não um fingidor, uma mentira, um personagem, um fantoche, um falso simulacro. Egoísta que procura aplausos.

Mesmo sob o prisma pessoal, a arte é uma vida elevada. Ela traz uma felicidade mais profunda e um desgaste mais acelerado. Grava no rosto de seu servidor os traços de aventuras imaginárias e espirituais, e com o tempo, mesmo no caso de uma vida exterior de uma placidez monástica, provoca uma perversão, um refinamento, um cansaço e uma excitação nos nervos, que mesmo uma vida cheia de paixões e prazeres desvairados dificilmente poderia produzir. (Thomas Mann, Morte em Veneza)

Oscar Wilde também afirma que escritores devem ser miseráveis para possuírem uma obra reluzente. É o fardo de nossa arte já que, na vida plenamente comum, não há a mola que nos machuca e nos expande. A dor é nossa cruz, a tristeza inconstante nossa matéria bruta. "Nós trabalhamos no escuro - fazemos o possível - nós damos o que temos. Nossa dúvida é nossa paixão, e nossa paixão é nossa tarefa. O resto é a loucura da arte." (Henry James)

Sempre só. Todos e um só. O escritor não é ninguém ao certo, perdido. Desfigurado entre Dorian Gray, Hamlet, Don Quixote, Brás Cubas, e si mesmo.

Bauru, 24 de julho de 2007



3 comentários:

T.S.A. disse...

Uau! Dou 34 patacas pelo texto, é lindo e acolhedor.

beijos.

Arthur Malaspina disse...

Muito bom mesmo esse texto...

Vitor disse...

É chato simplesmente elogiar um texto e parar meu comentário por aí. Mas de tão profundo (êita clichê!) elogiar é só o que posso fazer nesse momento. Parabéns!