sábado, 21 de julho de 2007

vã winkle

dedicado a Nne

Eu abri meus olhos depois de um longo tempo. Parecia que na minha mente, entretanto, Cláudia continuava falando o que sempre falava. “Você não enxerga ao seu redor”, ela dizia. Ela diz. Incansável como é, não percebe – ou percebeu? – que o cansaço tinha me alcançado.

O que vocês precisam saber, por mais detalhes que eu possa contar, é que abri meus olhos lentamente, machucando as retinas. A luz do sol tinha sofrido uma espécie de exílio forçado do meu corpo, especialmente dos meus olhos. E meu corpo, por esse longo tempo de introspecção, não conheceu nada além dele mesmo.

Lembro que a primeira sensação foi a paralisia nas pernas. Ou, antes, nos pés. Algo que realmente me surpreendeu, tão habituado que estive em caminhar por toda a vida, por todo o mundo. Em seguida, ao invés da paralisia subir gradualmente, atingiu os olhos, e os pegou exatamente no momento em que observavam as pernas já imóveis.

Boca, mãos, braços, cérebro. Cansado, aceitei a paralisia como uma licença que o mundo me concedia. Onde eu estava não era importante, já que havia chão suficiente pra que meu corpo tombasse em paz numa morte temporária.

Disse que abri meus olhos, mas menti. Estou abrindo, neste momento, pouco a pouco. Se bem me lembro, o sol estava mais alto quando comecei a descerrar as pálpebras. Era verde, por aqui, antes de tudo. Antes do tempo. Uma daquelas poucas reservas originais de natureza. Eu vinha fugido, fugido do mundo dos homens que estavam lá atrás, por toda a extensão da terra.

E Cláudia não entendia o porquê do meu cansaço. Dizia ela que não havia motivo pra que eu fugisse, sumisse, pegasse minha mala e simplesmente fosse embora. Ela não gostava que eu desaparecesse, que eu me fosse. Que eu a deixasse. Cláudia era o mundo, mas não conseguia deixar de ser as pessoas. E as pessoas incomodavam meu mundo.

Quando cheguei aqui – há quanto tempo? – imaginei que pudesse viver sozinho, em paz. Mas na bagagem eu trouxe, talvez por engano, muito da carga humana que me tinha saturado. Minha mente não entendeu meus passos, naquele tempo, e ofendeu o espaço no qual andavam meus pés incansáveis.

Era a única parte de mim que realmente não se afetava. Meus pés não permitiam que meu corpo decaísse, sofresse, dormisse. Não me permitia morrer, meus pés. Até agora. Até... até aquele tempo atrás, tanto tempo que não reconheço. Até aquele tempo em que meus pés perderam a luta, e minha mente transbordante de tristezas humanas levou meu corpo ao chão.

Veja! Finalmente enxergo algo. Meus olhos parecem reacostumados a essa luz, mas não sei se estão naquele estágio em que tudo é sombra, cinza, vulto. Deixa-me ver... reconheço contornos, distâncias, perspectivas. Mas o verde sobre o qual deitei não me aparece em lugar nenhum. Tudo é sombra, cinza, vulto.

Desperta, como os olhos, está também a mente. E ela envereda por uma jornada temporal infinita – pra antes, pra agora, depois. Uma daquelas jornadas de conjecturas, de possibilidades, de paranóias. É tudo sombra, sim, agora. Mas por quê? Cinza e vulto reunidos. Sobrou deserto em tudo, aqui. Deserto que comeu o verde, o tempo antigo, a esperança, minha mala. Não me comeu, maldito.

Ponho-me a imaginar o tempo novo triste correndo, envolto pelo escuro do vazio humano. Por isso fui poupado, então. Por ser humano.

Vultos de pessoas trafegam pelo cinza distante. O contorno de uma cidade se faz enorme. Uma cidade melancólica, a que cheguei. Que chegou a mim. Uma cidade. Lalonge.



11 comentários:

Iris disse...

desperta, aberta... ao verde.
descança e caminha,
encanta!

sidney disse...

Cara voce escreve pra CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
Seu fã (por mera coincidencia teu pai)

maria das águas capibaribenhas disse...

acordastes...
bom ler-te de novo.
amo.

. disse...

fazer-se sentido.

Alh-ezehctine disse...

Meo, sem palavas, só sentição de sentimentos que estão além do corpo, do coração, da mente e quem sabe da alma... Como diz um amigo, de pirar o cabeção

Tio disse...

Como diz o Marlyn Manson 'A vida se resume em RGB'

Exetrocsky disse...

A arte do seculo XXI infelizmente está fadada a representar solidão e isolamentos sem vínculos dialéticos reafirmando o paradigma do individualismo aliado ao desespero de viver numa sociedade que não existe

Alisson disse...

Assustador, mano, tu ta ficando muuuuuuuito foda. Todas patacas do mundo não pagam o eterno. Parabens

Abração

Vitor disse...

"aceitei a paralisia como uma licença que o mundo me concedia", hehehe. Muito bom!

Vivien disse...

Depois de uma "singela" dica do Leandor, cheguei aqui.;0)
Volto com mais tempo, pra ler e comentar com calma.

Vivien disse...

ops, "Leandro".