quarta-feira, 25 de julho de 2007

Do conhecimento

Curioso como algumas pessoas vão fazer de seus caixões suas bibliotecas derradeiras, o reduto último do conhecimento que adquiriram através dos livros alheios, nobremente cedidos pelas gerações e séculos. Viramos grandes campos gravitacionais de informação, buracos negros de inteligência, cada vez mais glutões, vorazes e acima de tudo presunçosos.

Entendemos o conhecimento como nossa posse, quando a verdade é justo o oposto: nós é quem somos posses do conhecimento, meros meios de transporte desta força superior que nos tolera desde que o primeiro ser entendeu alguma coisa. O que nós sabemos é aquilo que nos foi transmitido, e o que nós forjamos é fruto desse período esguio em que o conhecimento estaciona em nós – fenômeno largamente conhecido como “vida”.

No fluxo interminável da informação, se erguem duas barreiras: aqueles que negam conhecimento e aqueles que o engolem – o que, ao fim, dá no mesmo. Tem gente que se recusa a aprender, como se o cérebro fosse um local limitado como um HD vagabundo – e sob o qual nós tivéssemos pleno controle. Aprende-se o que é prático, um verdadeiro esforço pela sobrevivência que a humanidade conseguiu superar pelo menos desde o Renascimento. É a lei lógica do mínimo esforço, que se converte na lei cabal do mínimo futuro.

Por outro lado, há quem se apaixona pelo conhecimento, o leva para casa, dorme com ele atado ao travesseiro – e na calada da noite o empurra pela goela, num movimento de canibalismo metafórico que faria o Modernismo brasileiro encher os olhos de lágrimas. Nasce assim o status do conhecimento, a força que nós fará melhor porque a possuímos, não porque a usamos. Somos assim uma espécie de superman do banco de reservas, que entrará em campo apenas se o placar for dado como irreversível.

É absolutamente sem sentido esta ostentação descabeçada que assoma os meios acadêmicos: a erudição do indivíduo com fim nela própria não é só egoísmo, é a coroa da moeda, é burrice. A alegria da detenção do conhecimento torna-se quase um desaforo quando usada na forma de poder, de hierarquização, do sempre malévolo “eu-sei-e-você-não”. Que seria de nós, se cada livro escrito fosse trocado por um sorriso de presunção na cara do autor,que se limitaria a rir com garbo da ignorância alheia? Transmitir aquilo que se sabe não é só altruísmo, é gratidão. Precisamos parar de buscar a imortalidade no prestígio de um cérebro que dissolverá tudo o que sabe junto com sua própria carne, precisamos entreouvir no silêncio das bibliotecas as milhares de páginas sussurrando a cobrança justa em nossos ouvidos – vá, seja útil como nós fomos.


4 comentários:

iris disse...

ha... adorei!

robson disse...

E ai Vinão!É o Robson, o Nose.
Cara, é a primeira vez que eu entro nesse seu novo blog...da hora ele.Mas tá falando difícil demais viu meu?Eu tenho que ter um Houaiss do meu lado pra entender o que vc quer dizer...Mas bele, acho que o pessoal de Letras escreve assim mesmo, o que um PREDRERU CU DIPROMA, ou engenheiro civil, ta fazendo aqui ne huaauhaua

abraço cara

B�rbara disse...

Texto maravilhoso! Realmente, n�s temos de aprender a partilhar nossos conhecimentos, sendo professores ou n�o. Gostei muito do blog e dos textos! O pessoal aqui se garante!
Um abra�o!

Arthur Malaspina disse...

"a erudição do indivíduo com fim nela própria não é só egoísmo, é a coroa da moeda, é burrice"
Muito bom isso Vini...

Realmente o meio acadêmico é incrivelmente falso...da dó.