domingo, 29 de julho de 2007

eutanásia

A decisão de desligar os aparelhos fora tomada. Manter a existência daquela vida era prolongar indeterminadamente uma inútil vegetação. Antes tão viva, a imagem daquele corpo estava agora putrefata e ressequida, como se cansada de anos e anos e anos de uso.

Os espectadores observavam, atentos. Os doutores não escondiam tremedeiras e nervosismos. Como desligar os aparelhos de uma vida tão importante? E, ao mesmo tempo, como uma vida tão importante se deixara tomar por aparelhos a lhe percorrerem o corpo, controlando seus sinais vitais e funções internas?

Estava decidido, não havia mais volta. Os poucos cientes da situação mantinham-se o mais perto possível dos botões fatais. Era vermelho, o tal interruptor que desligaria tudo. Vermelho do sangue que mantém a vida antes mesmo que ela viva. Vermelho da lava. Vermelho.

E pressionado.

Em questão de segundos, numa demonstração fascinante do nível tecnológico daqueles tempos, a energia deixou de correr. Hidrelétricas pararam de girar, usinas nucleares se apagaram, o sol foi encoberto e o petróleo escoou. Pequenas lâmpadas e aparelhos muito sensíveis não resistiram ao choque, e queimaram.

Em instantes, o mundo humano estava morto.

Após dias, ouviu-se um lento e calmo respirar. Havia crianças, poetas e loucos, no mundo. E poucos homens e mulheres jovens que decidiram sonhar. Os velhos, compreensivos por essência, preferiram seguir a trilha, e rumaram todos juntos para o alto infinito do céu azul.

E os homens que não se desesperaram, os poucos homens que não se desesperaram, sentiram o ar se agitar. Em uma respiração profunda e recém-renascida.


4 comentários:

T.S.A. disse...

1 pataquinha, tenho sono.
mas quero ser sereníssima como os sobreviventes e os velhos.

irisziober disse...

e sem perceber, desligamos "aparelhos" diariamente...
e o ar se agita, sem desespero.
repetindo o que já havia dito, adorei! :))

Ergos disse...

Fera demais. E, na minha opiniao, melhor que o anterior.

Vitor disse...

Esse texto me remeteu a imagens apocalípticas, uma grande dor no mundo, muita tristeza e perdição. Então nós fracassamos!