terça-feira, 31 de julho de 2007

Método

"Como toda boa literatura, veio inexplicavelmente e sem nenhum método."

Fala do filme Mais Estranho Que a Ficção

Houve um tempo em que era comum eu me sentar à mesa e escrever, assim, todo dia. Coisas boas, interessantes, de vigor. Não foi assim por muito tempo. Por princípio pensei que era só uma crise de estafa, stress ou alguma outra dessas doenças dos tempos modernos, logo passaria. Não passou. Senti-me traído, traído por mim mesmo. Tentei achar um novo método, afinal era método que me faltava, não era? Bem, sendo assim não deveria ser tão difícil, deveria? Foi.

Houve um tempo em que escrever era mais fácil, era natural. Tudo era mais simples, grandes obras se compunham praticamente sozinhas e se apresentavam ao mundo clamando seu lugar na história. Obviamente não fiz parte dessa geração de ouro da escrita, mas tive meus méritos. Quando comecei, já havia muito sendo escrito, já não eram necessariamente os melhores textos que eram publicados, mas ainda era difícil. Ainda havia esforço. Hoje penso sempre se escrever ainda tem toda essa importância, e acho inclusive que estes questionamentos me atrapalham a escrita. Nunca reencontrei aquele meu antigo método.

Nunca escrevi uma grande obra, dessas que redefinem o panorama da literatura, e me ressinto disso. Sei que soa ridículo uma afirmação dessas nesse ponto da vida, mas a mentira seria, como sempre, muito mais ridícula e devastadora. Ridícula para todos os que me conhecem e que podem afirmar “olha esse velho dizendo ser mais que a miséria que sempre foi” , e devastadora pra mim mesmo, que vi meus colegas de escrita, sujeitos de minha geração, escreverem todas as grandes obras. Afinal quantas obras geniais podem existir? E quantas delas poderiam ter surgido nos últimos 50 anos? E por que nenhuma de minha pena? Sabe-se lá o motivo!

Método, afinal foi assim que retomei reminiscências na tela deste computador (quando comecei escrevia tudo manuscrito, enviava ao editor e lá eles prensavam). Método. Poderia jogar a culpa de minha mediocridade à falta de método, à falta daquele método do meu começo de carreira, mas não sou assim, nunca fui, infelizmente sempre tive sinceridade demais comigo mesmo. Nunca escrevi uma grande obra, mas pelo que parece escrevi importantes obras menores. O que faltou? Não sei. Se soubesse, com certeza não amargaria a falta de importância das coletâneas de colégio. Há como viver a vida assim? Sendo menor?

Essa é uma pergunta cabível a minha pessoa, este velho que jogou todo seu tempo fora escrevendo lixo. “Escritor profissional”, era essa minha profissão, foi essa a minha profissão por 50 anos, ou mais. Escrevia regularmente, todo dia. Como – poderia se perguntar o leitor – escrevia tanto? Eu não havia dito que tinha perdido o hábito? Sim, perdi e nunca recuperei, e depois disso, depois de um promissor começo, eu virei só um previsível cronista. Daqueles de manual. Não era criativo como no começo, escrevia (bastante até), mas o que saía de mim não era mais que um arremedo bobo de uma pretensa literatura. Até escrevi coisas boas, nada genial, devo dizer, mas coisas relevantes. Todas elas em súbitos arroubos de inspiração...

Houve um tempo em que me pretendi um grande artista. E isso só me serviu para cultivar uma dor incessante, só serviu para me saber menor. Pretendi-me um grande escritor, daqueles que mudariam o panorama das coisas, não fui. Fui um pobre Arlequim, que em arroubos tem sua Colombina, mas que o normal é não ter nada. Todas as pretensões que poderia ter se esvaíram tão fácil. Foi como um sopro. E pensar que havia um tempo em que bastava eu me sentar à mesa e escrever. Eu tinha rotina. Eu tinha método.





2 comentários:

iris disse...

e foi-se mais um sopro...
:)

Vitor disse...

Que pesonagem interessante! Na qualidade de pretenso escritor, me sinto assim, por vezes...
Mas ao contrário dele, deixar minha estampa no mundo é algo que possui um valor bastante secundário pra mim. E estou sendo sincero!