sexta-feira, 24 de agosto de 2007

A Bailarina


-Eu gosto de viver outra pessoa. - disse-me a bailarina, enquanto se contorcia como o cisne que ela não era.

E talvez não parasse mais de se contorcer se o real não viesse, inevitavelmente, bater-lhe de encontro à face. Era sempre assim.

Deu uma pirueta, toda floreada. Achava mesmo que por uns instantes era cisne e gostava ainda mais de ser cisne do que de se ser. Logo ela que gostava tanto do seu mundo, seu transitório mundo, calcado em outros que não eram ela, mas que ela fazia ser por um instante, um instante que era só seu, apesar de, talvez, não ser originalmente seu.

Já ia tarde a noite, o ensaio não cessava, nem dava pistas de que tão cedo cessaria. Eu tocava, era só o que sabia fazer, nada de floreios, não era solista, seguia a massa e ficava contente com o resultado final, grande Tchaikovisky. E no palco, os atores faziam sua parte, imensa parte, e ela , a bailarina principal, era a estrela, ofuscava o palco, ofuscava a orquestra, solava no grande palco, sozinha. Já dizia alguém da solidão do grande ator, maravilhosa solidão que propicia o momento auge de um espetáculo magnífico. E ela, sozinha, dançando, como a estrela fulgurante que era. E eu, tocando e seguindo a partitura, e seguindo ela, meus olhos eram todos dela, meus dedos tocavam, mas imaginavam as pontas dos dedos dela.

Cessou finalmente o ensaio, árduo. Logo o espetáculo poderia ser exibido. Havia muita espera por isso, imensa espera. A bailarina se dirigiu ao camarim, eu a segui, imerso que estava nos movimentos que ela fizera. Eu a segui, e a esperei na porta do camarim até que saísse.

-Olá, demorei demais? - disse-me ela.

-Quase nada - respondi - nada que não pudesse esperar.

E ela riu-se, abriu um lindíssimo sorriso, estrelado, e ela era ela-mesma agora, não mais o cisne.
E caminhamos, andamos até o carro, lentamente, ela queixou-se de dores nos pés, sempre se queixava. Pediu-me para dirigir, deixei, nada que ela pedisse a mim agora eu negaria, não agora, não depois de tão belo espetáculo, aonde ofuscara a tudo e a todos, não agora.

Ela dirigiu lentamente, e me disse milhões de coisas, que envergonho-me de dizer que quase não lembro, absorto que estava de seu rosto, e de sua boca que se mexia com uma graça imensa. Lembro-me que me disse sobre os pés, sempre eles, e sobre o seu papel, de como era difícil a dança que deveria executar. Na verdade, tudo que ela queria era que eu a escutasse e lhe desse atenção, e eu o fazia, com gosto.

-E seu instrumento, ainda desafina? - perguntou, lembrando-se de mim.

-Não, não mais, mandei a um bom afinador...não poderia estreiar destoando dos outros. - respondi prontamente.

-Mas você destoa dos outros, e é isso que gosto em você. - disse-me, com o mais belo dos sorrisos, pontuado por um incômodo de dor, aquela que vinha dos pés.

E eu senti-me o mais especial dos homens, e não era, que afinal, eu era um solista. Para ela eu era um solista.
Não tive resposta, apenas corei, o que ela percebeu, já que tornou a sorrir, e à menor brecha que teve (um sinal vermelho), me beijou carinhosamente, e me senti como em todos os nossos beijos, imenso. Tudo, afinal, estava turvo, nada podia me deixar mais feliz, tentei falar, mas não consegui.

-Você é muito tímido. - afinal era ela quem falara, e ainda em tom desafiador.

- Talvez um pouco demais. - dei o braço a torcer.

- É mesmo. - disse satisfeita. Os grandes artistas sentem uma especial necessidade de estarem sempre certos, e eu, apenas um músico da orquestra, apaixonado, sentia apenas a necessidade de alegrá-la, a grande estrela.

Havíamos chegado, enfim. Sem demora abri o portão. Ela, não sem dificuldade, estacionou o carro, descemos. Preparei-lhe a janta, seus pés doíam muito, comemos. Olhei-a e vi que a estafa lhe surgia da face. Tomamos banho, nos deitamos. Amamo-nos, e ela foi uma ninfeta esta noite.

-Eu gosto de viver outra pessoa. - disse-me logo quando havíamos acabado, e dormiu, bela.

Eu olhei-a mais alguns instantes, inebriado, antes de também pegar no sono.





1 comentários:

dani chan disse...

Apenas: realmente gostei.