quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Da educação

Ensinar não deveria ser para qualquer um – mas infelizmente é. Vivemos num tempo em que basta o conhecimento possuído para ganhar respeito, sendo que o altruísmo de levá-lo ao mundo é visto como um mero desdobramento, uma espécie de obrigação que não chega a ser de fato cobrada.

Todos podem falar, mas só alguns são ouvidos – e dentro desse grupo, os professores são a elite, pois recebem dinheiro para abrirem suas bocas e disseminarem suas palavras. Não há nada de errado com a docência como fonte de renda: o problema é a educação como mercadoria e o professor como um reles balconista da loja.

As escolas privadas tratam seus alunos como números – e o professor como uma espécie de contador, que deverá gerenciar as contas de modo que todas permaneçam lá e continuem a gerar rendas. O salto na inteligência do aluno só interessa à medida em que proporciona propaganda e status, para atrair mais alunos que irão gerar mais dinheiro e mais marketing – e assim a educação vira uma vitrine, não uma ferramenta humana.

Dentro desse quadro, o professor é o elo entre a educação e a empresa, uma flanela entre dois cristais ásperos – e precisa decidir sempre para qual lado ele dará as costas. Não seguir as sanguinárias leis do mercado geralmente resulta em tormento e demissão, mas isto não é nada perto de dar as costas ao ensino. Negligenciar a educação quando ela depende unicamente de si é uma omissão covarde, uma vergonha que mancha todos os dias o nome da profissão.

É uma pena, assim, que a cada dia mais e mais professores se entreguem a suas cadeiras e as imposições de suas instituições, na gana de salvar suas cabeças ao invés de seus alunos. Um professor precisa perder o sono para se decidir pela melhor abordagem, precisa se angustiar diante de uma expressão confusa – e acima de tudo, precisa se alegrar com a alegria da compreensão. Ensinar é lutar todos os dias contra a ignorância do mundo e contra a indolência sugerida, é não se deixar levar por métodos cômodos que não funcionam, é aceitar que o aluno realmente paga o seu salário, e que isso não deve ser para você uma ofensa, mas uma lembrança de seu compromisso: que seu brilho foi feito para iluminar o mundo, não para tornar seu corpo incandescente e cheio de prestígio.

Numa escola perfeita, ensinaria não só o indivíduo competente, mas o responsável por aquilo que faz. Torço pelo dia em que não existam mais professores com aprovação no diploma e reprovação no caráter.


2 comentários:

Anônimo disse...
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Vitor disse...

Concordo com tudo que você disse sobre professores, instituições particulares e educação. Sou professor em uma escola particular, portanto sei bem do que está falando.

Mas penso que o maior vilão dessa história é um sujeito chamado "Capetalismo", e como citar o nome desse cara é algo que dá pano pra manga, melhor parar por aqui, rsrsrsr.