domingo, 12 de agosto de 2007

Feliz dia dos pais, papai!

Da última vez que vi meu pai, se minha memória não me trair, eu devia ter entre onze ou doze anos, muitas esperanças e vários quilos a mais. E agora, aos vinte e dois, tenho apenas uma memória apagada, sem valia para virar história.

O dia dos pais nunca teve significado para mim. Fora sempre o dia de manter as economias na carteira, ir ao cinema, ver tevê, passar a tarde cochilando, um dia qualquer.

Se querem um sentido mais profundo, a palavra pai nunca teve ciência em meu vocabulário. Sempre foi cena de filme, imagem em câmera lenta em comercial.

Meu pai é fragmento, apenas. Da memória de minha mãe, dizendo que ele esteve em minha infância e de duas memórias distintas após minha primeira década em vida: aos onze anos quando ele voltou e comprou-me um bolo de chocolate na padaria, para meu aniversário – desde então nunca mais ganhei um desses. E aos doze anos, possivelmente, quando meu problema em adaptar-me ao mundo que me cerca rendia piadas daqueles que estudavam comigo. O cenário dessa memória ainda é vivo em mim. Minha velha casa, sua entrada com uma frágil e antiga pequena árvore. Eu estava atrás dela, segurando um saquinho de balas, quando meu pai se aproximou e disse:

- Você tem de compreender que sou um de seus melhores amigos e você tem de confiar em mim.

Foram as palavras mais falsas e belas que ouvi. Perdendo apenas para todos “eu te amo” que eu diria futuramente. Sinto, ao lembrar dessa memória, um leve puxar na barriga que sei que é apenas riso. Meu aprendizado hoje avisa-me que todos só sabem mentir. E meu pai, nesse caso, seria um vencedor do prêmio anual da mentira. Não que haja uma categoria oficial.

Nunca reparei quando se foi. Notei quando as notícias não eram mais correntes, um mês, dois, sem avisos. Até uma criança notaria que era ausência. Fez diferença naquela época, mas logo meu pai voltaria a ser ninguém, um anônimo, formado por aqueles que me dessem ensinamentos.

E eu – perdoem por fazer uso do necessário jargão popular – segui em frente. Demorei a crescer, confesso, mas quando fiz foi de forma violenta, mudança dolorosa como deve ser. Criei uma barba rala, fiz novos amigos, amores mentirosos, sem pai.

O tempo fora tão longo, tão rápido que um pai não parece se adequar em mim, não faz parte de meus planos. Esse cargo cedeu espaço para outras partes importantes. Meu pai fora sempre estilhaços de pessoas que formavam a figura masculina que me educava. Se posso nomear pais, faço de meus dois tios – irmãos de minha mãe – meus verdadeiros pais, que agüentaram minhas artes infantis, assistiram meu crescimento, me educaram.

Meu pai biológico sempre fora um homem vestindo uma máscara, uma interrogação constante. Mas parto em sua defesa alguns instantes, ele pode ter seus motivos. Mas homens não abandonam seus filhos sem argumentos ou explicações. Não há mais em mim espaço para um pai, fui além disso.

Quando eu crescer, quero ser alguém como meu pai. Um homem que vai embora.

Domingo, 12 de Agosto de 2007.




6 comentários:

Daniela disse...

Belo texto, belas pelas palavras, como sempre ne. Mas eu espero q qdo vc crescer vc nao se torne como seu pai e sim apenas desenvolva esse Thiago maravilhosamente chato q vc eh (hauahauhauaha). Ah, apenas menos housear, please.

obs, agora vc nao pode falar nada q eu nao escrevi no seu, mas eh q o Arthur sempre me lembra de escrever no dele ne.

Anônimo disse...

é isso aí xuxu.
Bjo

C'thulhu disse...

A pergunta que não quer calar: que porra de barba rala é essa que não dá pra ver?

iris disse...

todos vão embora, uma hora ou outra...
gostei =]

Arthur Malaspina disse...

Devastador...

eliana disse...

lindo teu texto, mas triste demais! beijão