quinta-feira, 30 de agosto de 2007

momento-chave

Tinha uma chave decorativa antiga antiga de bronze e cobre. Era da família, estava lá havia tempo – gerações e gerações intermináveis de Marmeleiros. Resolveu um dia que andaria com ela, assim, a tiracolo. E o fez. Sua idade era pouca, na época.

Passou pela vida olhando ao redor a vida dos outros. Nenhuma delas lhe parecia muito interessante, de real valor, nenhuma nada. Só a sua. Mas, cercado como estava por idiotas, acabava ele mesmo achando que não valia muito a pena sua própria bela vida.

Cabelos-brancos caminhava pelo asfalto poeirento de uma velha estrada que percorria a anos. Olhava pro chão, velho e desanimado – chão e ele. O som dos vivos em volta fazia pensar sobre aquela história de vida, de gentes e alegrias. Decididamente não as tinha.

Tateou seu bolso, quase displicentemente, só para constatar que sua chave estava ali. Não tinha muito como não estar, na verdade. Ela o acompanhava mais do que ele mesmo a ele, e nunca mostrara valor prático nenhum.

Vida. Viu uma espécie estranha de reentrância no chão pisado. Ajoelhou-se, vagarosamente, no ritmo que seu corpo decrépito permitia. E notou que ali, ao lado – à frente, na verdade –, por onde passava todos os dias desde muitos e muitos dias atrás, havia uma fechadura antes-reluzente.

A chave pulou de seu bolso a sua mão e num impulso desavisado arremeteu contra o chão velho. Perfeito encaixe. Um delicado girar na fechadura foi suficiente para que o chão inteiro, de ponta a ponta de horizontes, se abrisse. Cabelos-brancos olhou. Girasse mais, levaria o mundo todo de homens e inventos pro centro quente magmânimo da mãe-Terra. Seria mesmo um alívio esperado desde moço.

A abertura era estreita, mas suficiente. Via, em suas margens, carros, flores, bicicletas e um pequeno bebê azul-marinho se precipitarem pro fundo útero e se perderem. Não eram mais carros, flores, bicicletas ou pequeno-bebê-azul-marinho. Eram fogo, terra, num mar aéreo subterrâneo negro. Girasse mais, levaria todo o mundo de homens e inventos e infindos contratempos à mãe-Terra.

Precipitou-se, levando a chave e trancando o mundo pro lado de fora.

5 comentários:

eliana disse...

tenho certeza que você tem essa chave...

eliana disse...

Maravilhoso!
Quem sabe haverá a formação de um novo mundo novo, agora.
E quem sabe a chave dele poderá estar em nossas mãos, será que conseguiriamos ter realmente sabedoria para ver quem entraria pela porta?
Bjs.Pai

Khodaky disse...

CONVITE

caros colegas de literatura marginal em busca de espaços para divulgação de trabalho...

apresentei um projeto na secretaria da cultura e vou realizar uma exposição de fotografias. Como não é sempre que a gente consegue espaço, resolvi compartilhar a oportunidade com vocês!

Eu gostaria de convidá-los a escrever textos para acompanhar as fotos, não se preocupem com relações óbvias entre texto e imagem... essa não é a nossa praia mesmo! hehe

podemos marcar uma conversa pra passar os detalhes? a exposição já está marcada para 5 de novembro, com coquetel e tudo mais!

aguardo noticias!

iris disse...

não sei porque, mas quando começei a ler, me lembrei de Cem anos de solidão...
suas palavras continuam belas.
:))

mayra disse...

"A abertura era estreita, mas suficiente."

Gosto daquela chave.
Da sua cançao quando abre o mundo.
E que musica cabelos brancos ouviu?
...de certo alguma inedita...desatinada.
o mundo precisa de tantas chaves..
renda-se.
ou façamos amor!

lindo texto.Inspira.