quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Pequenos Recortes

I
“Love is all you need, love is all you need ...” “ei, ei.” De súbito Marcelo despertou de seu recente estado de torpor, tirou os fones de ouvido e disse: “o quê?”. “Você absolutamente não entende nada de mulher, né?”. E de súbito novamente Marcelo se viu envolvido pela aura de uma mulher chateada. “Ahn?”. Só pode dizer isso. “Que ahn, o que? Se manca seu idiota”. É ela era definitivamente uma mulher difícil. “Ahn?”. De novo nosso gênio da retórica. “Sabe, cansei de você”. E saiu batendo as portas. Marcelo obviamente não entendeu nada, porque é claro que não havia nada pra se entender. Coisas de mulher. Então voltou a escutar música, do começo é claro, “Love, love, love, love, love, love, love, love, love. There's nothing you can do that can't be done. Nothing you can sing that can't be sung. Nothing you can say but you can learn how to play the game It's easy...”

II
Uma farmácia, momento muito ruim do dia, uma gripe horrorosa. Que solução que não uma boa aspirina? Foi exatamente o que Lívia pensou. Pegou uma cartela das benditas aspirinas na prateleira e se dirigiu até o caixa. Tudo muito comum. A moça do caixa falava ao telefone com alguém, provavelmente algum namorado. Enquanto falava, descascava as unhas pintadas. Lívia teve arrepios, metódica que era, odiava esperar e também odiava gente porca e descascar as unhas, na opinião dela, era imperdoável. Esperou uns 10 minutos. Coisa chata, isso é hora de falar no telefone? Pensou. A moça do caixa percebeu sua impaciência, tampou o bocal do telefone e disse: “A senhora quer alguma coisa?” Lívia atirou as aspirinas no chão, saiu da farmácia, entrou no carro e caiu no choro. O pior momento do dia.

III
“Aos meus amigos”, era o nome de seu livro. “Gostei muito” disse sua amiga mais próxima. Sua mãe também gostara. Já previa ótimas críticas, mas lá no fundo queria alguma crítica negativa, só uma, para que se estabelecesse uma polêmica. Uma boa polêmica sempre aumentou a venda dos livros! Pela manhã saiu e comprou todos os jornais que da banca. Leu-os todos, de cabo a rabo. Nada. Esperou pelas revistas do fim de semana. Nada. Nas revistas mensais apenas um único artigo, que lhe passou batido, dizia: “Só mesmo os amigos do autor lerão”.

IV
Havia estudado as origens do cosmos, do próprio universo, eram mil conjecturas. Passou sua vida toda tentando achar suas origens. Nenhuma certeza, nada. Anos a fio, uma boa teoria que não era sua, uma explosão, um nome em inglês (Big Bang), nunca conseguiu ir além desta teoria alheia. Seus estudos nada acrescentaram, sua própria existência insignificante perante a grandiosidade do universo, e ele, como estudioso dessas coisas todas, sabia. Era insuportável. Sua vida toda, afinal, não foi mais que um pequeno recorte.





1 comentários:

Thiago Augusto Corrêa disse...

Porque nenhum putardo comentou aqui ainda?

Eu confesso, eu não tinha lido esse texto. Gosto de recortes e todos são muito bons.

Me lembrou um texto que o Rafael fez no 3 Vozes, dê uma olhada. Não tem nada a ver com o tema, mas é também em recortes, ele chamou de "Continhos". E é tão foda quanto o seu.

Sintetizar idéias curtas é bom, deixa dinamico o texto e sem bla bla bla.

http://3vozes.blogspot.com/2005/02/continhos.html