sábado, 4 de agosto de 2007

Um Canto

Minhas mãos entrelaçam uma moeda que passo entre os dedos. Posso ouvir o agudo ruído do metal. Na mesa, o vinho derramado. Ergo a taça e me sirvo, tenho algumas horas de vida.

Sobre a mesa, se desfazendo em tintas pelo vinho, um retrato. Retrato que luto para compreender porque me fascina.

Os dados caem no tabuleiro, sete passos para frente. Na casa em que estou há uma frase: "Volte para o início". Movo o pino para o início novamente.

Tenho 12 anos de idade, comemorando um gol que fiz. Um amigo me abraça em comemoração, sem saber que ele morrerá doente. A cena corta para meu primeiro beijo, uma pequenina e bela loira de mãos dadas comigo. Vejo sua cara envergonhada após abrir meus olhos.

Os dados marcam agora cinco em seu resultado, são cinco casas à frente, "aqui é o início de sua fortuna". Vejo o enterro de meu pai e seus amigos indo embora. Deixando minha mãe sem fortuna, com um filho para cuidar. Uma sensação estranha me invade, sabendo que ela construiu tudo de novo, melhor que aquele velho viciado.

O caminho me lembra de minha esposa, um amor que nunca chegou ao fim, o único filho que tive e que não me dá notícias há seis meses. Os dados estão cada vez mais pesados, mas continuo jogando-os, não desisto de prosseguir.

Estou no final do jogo, de acordo com ele minha vida está completa. Sou um homem de conquistas, amado pela esposa e por meus filhos. Tenho tanta riqueza que sua metade é doada mensalmente a instituições.

Vejo a sombra de alguém às minhas costas, olho no relógio, ela é pontual. São 51 anos, 15 semanas, 2 dias e 3 horas de minha vida. Me viro lentamente para olhá-la. Sem trajes negros, cetros, cara diabólica. Uma mulher comum, apenas com olhos vazios. Ela me espera sem dizer nada.

"Não aceita tomar algo? Ou talvez uma partida de xadrez?". Sorrio apontando um tabuleiro ao lado daquele que jogava.

"Desculpe, senhor, meu tempo é deveras curto. Culpa dos tempos modernos, nascem muitos, morrem ainda mais, faço hora extra quase todos os dias."

"Se não tenho alternativa, só me dê alguns segundos."

Ela concorda levemente com a cabeça. Pelo que me disseram, assim que ela tocasse meu corpo, eu daria meu último suspiro. Fui ao espelho para verificar o nó da gravata e fechar o palitó.

"Estou pronto", mas logo me lembrei da moeda que havia em minhas mãos e do retrato em cima da mesa. "Não quero ficar preso entre os mundos", disse a ela num sorriso enquanto mostrava-lhe a moeda. Sobre o retrato nada disse.

Ela me retribuiu, sorriso belo e distante. "Sem problemas, o senhor sentirá apenas um leve comichão".


Me encontraram dois dias depois, era necessário uma manutenção em meu apartamento. Disseram que meu filho chorou por mim no enterro, dizendo estar arrependido. Os amigos passageiros apareceram para uma última homenagem estúpida e uma donzela desconhecida apareceu logo no final. Se talvez fossem mais atentos, perceberiam que ela era a moça do retrato. Não que agora fizesse alguma diferença.

Sábado, 4 de agosto de 2007.




1 comentários:

Vitor disse...

Não gostei muito do último parágrafo, mas o conto é muito bom. Parabéns!