sexta-feira, 7 de setembro de 2007

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A presença de uma mulher, principalmente como ela, ali, naquele nada branco e cômico, era curiosa. Depois de instantes, porém, tornou-se claro o motivo de sua presença. E, presenciando tal companhia, Homem-dos-santos estremeceu.

Na verdade, aquela branquidão toda era incômoda. Homem-dos-santos olhou para a sala em que estava, supondo que estivesse em uma sala, e notou como a falta de horizontes, fontes, pontes ou quaisquer outras referências podia ser perturbadora. A única referência – embora branca, também – era a tal mulher.

Ele, negro como o sono, ela, branca como a vida. Ele, trajado de manto e cetro, ela, nua. Ele, de olhos fechados para não a ver. Ela, sorridente, indo em sua direção.

- Sou alguém de quem não se foge, homem. Indispensável, inevitável, irremediável, irreconhecível. Irresistível pra todos aqueles que ousam. Alento pra todos aqueles que temem. Corpo pra ti, e alma, tua, pra mim, é claro.

Homem-dos-santos estava, era, numa vinícola. Ele lembrava. Mas as vinhas deixaram a vista, e vinha um cheiro agora de almíscar e de café. Do verde, vinho, tudo, o branco e a mulher restaram. Ela estava no vinhedo, não estava? Estava, ele lembrava. Lembrava de muitas coisas, menos do que precisava.

- Sou quem não se atrasa, meu homem. E quem, indesejada, quase sempre parece chegar cedo demais. Sou a expurgada das preces dos homens, a ansiada pelos velhos enfermos, a compreendida pelos mestres eternos. Sou teu único refúgio, caminho e referência, vês?

E o corpo nu, loiro, lívido, risonho, apontava para todas as direções, parecendo dizer ao Homem: “vim, vi e venci”.

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Homem-dos-santos acordou numa grande tina de vinho. Estava submerso, com algo a lhe empurrar cada vez mais pro fundo. Meio bêbado, nadou para o lado, rindo um pouco. Encontrou ar, na superfície, e uma cena apocalíptica. Metade de um telhado nadava ao seu lado, e um grande trator vermelho tombara por sobre alguém.

Era bela, branca e nua. Felizmente não o conquistara.



5 comentários:

mayra disse...

esse texto..
provoca "meu medo"..
dos anestésicos.

(sem exames,fui "longe")

Alisson disse...

poha, mano, ta muito foda !!!

esse existêncialismo maluco mostra a loucura de todos com uma forma sábia, dinâmica e quente !

É como uma trova recitada na beira do abismo, linhas de uma vida relutante que emergem do vazio como forma de resistir o ser tragado pelo nada - o qual talvez só exista pela nossa bestitude geral de não entender merda nenhuma do caso aauhahu

sei lá, só sei que tu mandou bem

Abraços !

Anônimo disse...

Quem sabe em uma vinícula qualquer, exista um Baco com maior poder do que aquela Mulher de branco.
Fica a incógnita...

Thiago Augusto Corrêa disse...

Ou uma Baka!

Felinea disse...

"...e notou como a falta de horizontes, fontes, pontes ou quaisquer outras referências podia ser perturbadora."

texto sensacional! dinâmico, forte e provocante. mexeu comigo.

beleza de blog, guri.