domingo, 23 de setembro de 2007

do céu até nós, as suas asas

Quando deixou de falar – aos poucos, de forma quase imperceptível – Alceu se isolou do convívio dos homens. Foi ao Monte dos Canários, com nada exceto um manto velho e leve, de um azul claro quase consumido pelo tempo. Foi ao Monte dos Canários e se calou.

É certo que não tinha, até então, muitos laços que o prendessem realmente. Não tinha família, amigos muitos, não tinha empregos nem nada disso. Alceu tinha a si – e, mesmo assim, nem sempre, e nem tanto. O Monte dos Canários parecia perfeito, portanto. Perfeito porque asas, porque longe de casa ou qualquer outro pretexto.

Ah! Levara, Alceu, também, uns blocos de papel e duastrês canetas. Convencera-se de que era necessário – para voar – silêncio, mas não o desprendimento total das palavras. Escrevia sempre que necessário, e muitas vezes escrevia no chão batido de terra escura, quando suas palavras eram efêmeras e, por natureza, impuras e sumidouras.

Bebia água das chuvas e caçava o que havia. De morada, criara para si um ninho no mais alto alcançável. Seus dias se passavam assim, e assim Alceu vivia.

Era motivo de apreensão – e o único motivo de apreensão – a sempre iminente aparição de suas asas, saídas das omoplatas, pela pele rasgada das costas suadas de caçador que era, agora. Desde pequeno tinha essa intenção: calar-se e, no mais breve possível, alçar vôo com suas asas estendidas e cruzar os céus do mundo, feito anjo mensageiro.

Não havia outra crença que a na visão do Anjo. Sabia, Alceu, que ao avistar um anjo o Homem todo e em toda parte pararia novamente, e pensaria, e – se assim deus desejasse – tomaria os rumos certos, esquecido de que andara até então na escuridão total do mundo.

Voou, um dia. E assim foi. E assim é. E assim será, sempre. Em silêncios respeitosos, calmos e serenos, mudos mudarão os mundos.

3 comentários:

iris disse...

"Alceu tinha a si – e, mesmo assim, nem sempre, e nem tanto."

lindo :))

eliana disse...

lindo!

Larissa disse...

Não falei? Um inventor de coisas, de histórias, de palavras....