quinta-feira, 27 de setembro de 2007

A elite e a margem

Consigo lembrar bem da minha quinta série: eu era o nerd da turma que se juntou com os outros nerds que assim podiam formar seu grupo e andar juntos, enquanto o resto dos alunos eram compostos basicamente pelas meninas fúteis, os fortões, os riquinhos, os sem-graça, os cool, os bonitões, os burros etc, além daqueles que conseguiam ser mais de uma dessas coisas ao mesmo tempo. Enfim, acho que não é nada muito diferente da minha faculdade.

Recordo a minha quinta série sempre com o mesmo frescor porque eu a tenho revisto diariamente desde que a abandonei, através do resto do ginásio, do colégio e depois da universidade – e desconfio que já me via com ela desde o meu primeiro dia de aula da minha vida. A escola para mim sempre foi uma representação perfeita da sociedade no que ela tem de mais cruel: a divisão clara entre a elite e a margem.

Natural que eu sempre tenha sido da margem – inteligente, feio, estranho, com um senso de humor grande demais, eu devo ser a descrição de dicionário do nerd. Na minha quinta série eu era exatamente tudo isso, enquanto meus colegas de sala eram bonitos, fortões, os bons da educação física, os caras que iam ao shopping nas noites de sábado porque os pais tinham carros, aqueles cujos nomes as meninas bonitas escreviam na lousa com um coração patético em volta, que estavam sempre na saída com suas incríveis bicicletas. Enfim, tudo o que eu criticava e desejava de um jeito frustrado antes de dormir.

O avanço das séries tornou meus colegas mais complexos, mas em momento algum destruiu as diferenças entre a elite e a margem. A alta sociedade de hoje é a dona dos carros, baladeira, bonitona, forte e beberrona – enquanto eu resisto dentro daquilo que me convenci que seria melhor para mim. É curioso, mas remonta justo a minha quinta série o meu lento processo de percepção da grande farsa que é a elite,

E assim aos poucos eu fui trocando de sonho: não queria mais ser um deles, mas sim secretamente melhor do que eles dentro do meu próprio mundo – não precisava destruir a elite, nem queria que a margem é que fosse o grupo mais forte; decidi que bom mesmo é deixar que eles acreditem que estão no comando e assim se divertir imensamente longe dos códigos da aparência cretina.

Da quinta série em diante aprendi que a grande diversão da vida não é ser da elite, mas ser da margem e rir das duas. Deixa eu agradecer cinicamente todos os colegas que me desprezaram pela minha esquisitice a seus mundos: é graças a igualdade de vocês que eu descobri o sabor da minha diferença.



4 comentários:

Arthur Malaspina disse...

Espetacular!

"Da quinta série em diante aprendi que a grande diversão da vida não é ser da elite, mas ser da margem e rir das duas"

Quem sabe não se levar a sério, só pode ser uma pessoa legal, eu acho!

Nathy disse...

Ola! Vim aqui pelo blog da ariadne. Adorei seu ultimo texto, que inclusive ela usou no blog dela. Parabéns!!! Muito bom. Beijos!!!

Ariadne Celinne disse...

Esse é o meu escritor favorito. E palmas a margem. E ser DIFERENTE é o que há, a minha professora de redação vive mandando o povo buscar o tal do diferencial... ^^
e olha só, a gente já tem. \o/
*acho que as férias fizeram muito bem aos seus textos... ^^ estão cada dia melhores ^^ ;P

Thiago Augusto Corrêa disse...

"Prefiro não pensar igual, igual a você pensa
Por que ficar igual, igual às latas na dispensa?
Prefiro não pensar igual, igual a você pensa
Prefiro sim pensar que é boa, é boa a diferença"

(Titãs, Bom Gosto)