sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Mesmo no escuro nasce alvorada

Garçom, me vê a tristeza mais pura que tiver, quero o copo cheio, a transbordar, ao menos duas doses. Escolha a melhor safra para meu paladar, malte dos anos trinta, onde o mundo pós-guerra parecia esperança, ao contrário do medo que hoje nos assola.

Me mande de acompanhamento vinte e nove amigos para se embriagar comigo, sentirem o mesmo torpor de prosseguir a vida, sem sentir-se completamente vivo.

Peça ao relojoeiro que me dê em apreço seu mais belo relógio, para tentar compreender no tempo, olhando o pulso dos segundos, que ele é capaz de suturar a ébria sensação da perda.

Me deixe acreditar que Deus existe, para saber que quem se foi agora habita outros campos. Mesmo que eu saiba de antemão, no caso de uma força criadora se ausentar, que qualquer lugar é melhor que esta galhofa chamada de planeta.

Mantenha a lâmpada acesa e a mesa posta caso eu volte, essa tristeza é diferente, vêm da ausência que ficou (não há o que a desloque), e da beleza desta vida que vive agora nas memórias, longe dos olhos, além da meta-física.

Deixe-me esta faca ao meu alcance sem se preocupar com suicídio, quero apenas ter a chance de talhar-me um corte vivo, para sentir o sangue quente a correr os braços, demonstrando que a vida sem sentido ainda é uma dádiva, mas a vivemos sem esforços.

Chame o padre para orar comigo por aqueles que choram por amores perdidos, lamentando uma vida deitada em berço esplêndido, apenas. Que descobrirão quão única e sem igual é a dor de velar quem te fez caminho e agora livre deixa-lhe a trilhar só a vida inteira.

Por fim, se afaste de minha mesa, e guarde de gorjeta lição que te darei: ame em vida e nela tudo faça o bem que quiser, pois quando estivermos mortos, há nada mais o que fazer.

Agora deixe-me chorar e atenda o próximo pedido.

Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2007.




4 comentários:

Leandro Durazzo disse...

arrepiante.

Arthur Malaspina disse...

"À Deus por não salvar ninguém."

Dolorido mesmo.

Anônimo disse...

Inquietante seu texto.
Ele de fez lembrar daquela música do Noel Rosa na voz de Chico Buarque..
"Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada"...

Contudo, eles são opostos... cada um com seu objetivo e beleza.

beijos.

Maíra

Thiago Augusto Corrêa disse...

Realmente, confesso, tive as primeiras palavras dessa música na cabeça quando pensei no texto.