terça-feira, 25 de setembro de 2007

Os três pais de Hamlet

Um problema, ou talvez mais uma das muitas possíveis abordagens no jogo de espelhos criado por Shakespeare, naquela que talvez seja sua maior obra, Hamlet, diz respeito à relação do príncipe com seu pai. É o rei morto, também Hamlet, quem direciona os atos do filho, que conclama a vingança, porém Hamlet, o filho, do alto de seu intelecto não toma isso como outros tomariam, o que afasta o caráter de “peça de vingança” e aproxima de estudo psicológico ou como quer Harold Bloom “poema ilimitado”, alusão a célebre frase cômica de Polônio. É certo que o filho Hamlet pouco se assemelha ao pai, que era um “rei da guerra” e por isso não se toma imediatamente do desejo de vingança e por isso também não a realiza diretamente, como provavelmente faria Fortimbrás, muito mais semelhante ao rei Hamlet que o próprio príncipe da Dinamarca.

Uma possibilidade que se revela é a de que o verdadeiro pai de Hamlet fosse Cláudio, rei usurpador do trono, incestuoso marido de sua própria “irmã” (e esse incesto perturba Hamlet). Possibilidade interessante em se tratando de Shakespeare, que dava toda a atenção ao tema do sangue. É visível que o príncipe não amava seu pai, o rei Hamlet, tampouco ama seu tio Cláudio e apesar de nutrir afeição pela mãe, não transparece nada mais forte que isso, afeição, apesar de seus sentimentos em relação a ela permanecerem sempre ambíguos. Hamlet amou outrora Ofélia, amor já inexistente na ocasião da peça e nutre forte amizade por Horácio, porém seu amor só recai mesmo em Yorrick, o falecido bobo da corte, sua verdadeira e maior figura paterna (por vezes até materna). Aqui transparece uma das características shakespeareanas mais comuns, a falta de ação, ou supressão da ação, que nada mais é que um elemento faltando, no caso Hamlet sente afeição por um personagem que está a muito morto, e que nem mesmo toma parte na peça, a isto poderíamos assemelhar, o exemplo máximo na dramaturgia shakespeareana, na peça Rei Lear, onde Lear e Edmundo, os dois principais personagens e opostos, não contracenam em momento algum, quando um entra em cena, o outro sai, criando um efeito mais devastador do que um longo diálogo entre eles. Poderíamos então afirmar que Yorrick tem o efeito que tem, por não existir no âmbito da peça.

A nebulosa relação de paternidade de Hamlet talvez seja um dos motivos da postergação de sua vingança, ainda que seja ingenuidade pensar que o grande motivo não seja sua visão do mundo e a limitação cênica da peça perante sua complexa figura (“universo na casca de noz”). Hamlet se vê entre três figuras paternas, uma presumida, já morta, clamando vingança, uma real, alvo desta vingança e outra imaginária, a única por quem Hamlet sente afeição. Juntando isso à sua relação ambígua com Gertrudes, é o maior complexo de Édipo da literatura, incluindo aí o do próprio Édipo!

Essas dimensões ultrapassam em muito a mera brincadeira cênica e permeiam toda a ação da peça. O príncipe fora negligenciado constantemente pelo pai, sempre em guerra, que por conseqüência negligenciava também a rainha Gertrudes, que pelo tempo recorde com que tornou a casar (“os assados do enterro puderam ser usados como frios nas bodas”), provavelmente já se relacionava com Cláudio antes mesmo do assassinato do Rei. Sobrou a Hamlet a figura do bobo, tão presente na obra de Shakespeare (“os clowns de Shakespeare”), ausente de cena aqui, mas permeando a personalidade do príncipe, que demonstra todo seu amor por Yorrick na tão célebre cena do cemitério.

Gênio incrível, Shakespeare brinca com os significados dos laços de sangue ante a um intelecto tão poderoso quanto o de Hamlet, que, artista de si mesmo, entra, envelhecido como que por mágica, no quinto ato em busca da morte, ao cair, aparentemente de propósito, na infantil armadilha de Cláudio, um ridículo arremedo de Edmundo, e ao conseguir sua vingança já sem sentido algum para ele mesmo ou para o espectador. Hamlet morre se preocupando apenas em deixar alguém neste mundo que conte sua história, neste caso o fiel Horácio, reflexo mais do que claro do público que acompanha a encenação ou lê o “poema”, atônito ante a dimensão “maior que a vida” deste que é o personagem definitivo da literatura.





3 comentários:

Aluísio Azevedo disse...

Todos conhecem Hamleto; muitos o discutem; ninguém e nega; todos o aceitam; todos o desejam; todos o amam doidamente; mas ninguém o explica; ninguém o define, porque o próprio Hamleto não se explica, nem se define a si mesmo. Não se define, porque ele próprio é a mesma dúvida; é a mesma contradição; ele é o indefinido afeiçoado por um poeta de gênio.
Não é um personagem em arte, é um símbolo. É a dúvida, intangível e incorporável como o indefinido. E nisso está o seu valor. Todos o compreendem, mas ninguém o define em crítica, nem o traduz em cena satisfatoriamente.
Se Hamleto não fosse contraditório; se fosse explicável e coerente, seria incoerente e contraditório, e nunca seria Dúvida.

T. S. Elliot disse...

Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.

Arthur Malaspina disse...

"ninguém o define em crítica, nem o traduz em cena satisfatoriamente"

A definição é talvez impossível, ainda que tentativas não faltem. Quanto a montagem da peça, também é complicada, por causa de diversos fatores, principalmente o tempo da peça (4h e meia) e o ator que será Hamlet. Mas alguns já o fizeram muito bem!