quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Passado Simples

A idéia gramatical de passado simples aproveita do seu nome e se descreve com simplicidade: é aquilo que se encerrou, uma ação terminada em algum ponto da abstração que é o tempo, mas sobretudo encerrada. A humanidade sempre teve muito o que aprender com a gramática, e as noções de tempo são a melhor de todas as lições.

Nós deveríamos ser satisfeitos com nossos passados da mesma forma que a gramática é, ao encará-lo de um jeito franco e plano, sem mística nem visadas transcendentes, apenas uma ação que não está acontecendo agora nem vai tomar lugar no futuro, uma peça caída na estrada.

Gosto da idéia de vidas poéticas, mas gosto mais ainda de acreditar que pelo bem da nossa poesia as vezes precisamos ser gramaticais, ao invés de desencavar lástimas, pesadelos, aflições arqueológicas de alguma folha antiga do calendário. Nossos passados deveriam ser como enciclopédias pesadas, as quais só são acessadas em casos de necessidade muito forte – porque todo o resto já estaria consolidado em nossas cabeças. Porque se ater aquele momento preciso do que já foi, quando há uma infinidade de outros para acontecer?

Sempre me senti melhor do que aquelas pessoas que conjugam seus verbos todos num passado imperfeito, incompleto e sobretudo nostálgico. A avaliação do passado é sempre feita com o olhar do presente, o que é o mesmo que tentar medir um círculo usando um quadrado – incoerência pura. Claro que éramos todos mais felizes naquela outra época, porque a noção de felicidade era outra. O tempo físico avança, o gramatical se conjuga, o poético nos torna conscientes.

Ah se nós pudéssemos unicamente olhar adiante e sofrer da angústia do inesperado e nunca do ocorrido, seríamos pessoas mais tranqüilas com nós mesmos. Acho que não é por acaso que o outro nome do passado simples na gramática seja “perfeito”.



3 comentários:

Arthur Malaspina disse...

"uma peça caída na estrada"
é esse é o passado!

Ótimo texto Vini!

Ariadne Celinne disse...

já está no meu blog... adorei. um dos melhores textos seu dos últimos tempos (não q os outros não tenham sido bons :P)

Thiago Augusto Corrêa disse...

Eu não concordo totalmente.

Mas um dia replico textualmente.