sábado, 29 de setembro de 2007

Um e Outro

Não sei se foi Juliano que primeiro viu Gabriela ou Gabriela que viu primeiro Juliano. Eu tinha onze anos na época e minhas parcas memórias não se recordam de detalhes. Só sei que no primeiro dia de aula de minha quinta série, Gabriela era a única aluna nova, vinda da capital e que, uma semana depois, eles não mais se largavam.

Um estava onde o outro estaria. Como unha e carne, juntos, rindo sem parar. Ela o fazia rir com suas caretas, ele com suas piadas. Caminhavam juntos pelo recreio, sem se importar com os grupos de amigos. Trocavam bilhetinhos durante as aulas, alguns interceptados pela professora, que os olhava com apreensão. Eles não se importavam, bastava um olhar de esguelha entre os dois, para rirem silenciosamente um segredo que só eles sabiam.

Quando começaram a andar de mãos dadas, aos poucos se tornaram nosso assunto principal. As meninas começaram a ter raiva dela, os meninos se dissipavam quando Juliano chegava ao grupo. Talvez fossemos pequenos para compreender; elas com inveja, nós por não termos uma Gabriela.

Um dia ela adoeceu, e disseram que Juliano ficou doente também, só para lhe fazer companhia. Foi nessa época que vi, ao vivo, meu primeiro beijo. Juliano e Gabriela na roda do parquinho, mãos dadas, com os lábios colados. A notícia espalhou como um foguete até mesmo nas falas dos professores.

Depois disso tudo se tornou estranho, Gabriela estava mais retraída e diversas vezes a vi chorando, Juliano se escondia pelos cantos. Eles continuavam de mãos nadas, mas, parecia-me, que faltava o sorriso nos lábios.

Não sei se foi Gabriela ou Juliano o primeiro a desaparecer de repente. A única notícia que tinhamos vinha da professora, dizendo que ambos adoeceram. Uma doença invisível aos olhos, que atacava o coração e estancava nele uma ferida aberta, que nunca então, até o fim da vida, seria fechada. Me lembro dela escrever a palavra "Amor" no quadro, mas essas quatro letras, na época, só significavam mais uma descoberta em meu léxico limitado.

Alguns foram além, dizendo que Juliano matou Gabriela porque ela não queria mais lhe dar as mãos, outros dizem o contrário. Só lembro que foi nessa época, de burburinhos e especulações sobre o sumiço dos dois, que Ana Clara me viu, ou talvez eu vi Ana Clara.


7 comentários:

Anônimo disse...

Minha quinta série foi mais parecida com a do seu amigo aqui de baixo... e é assim até hj =P

Vc foi precoce, não? Ou será q eu fui retardada ao beijar só na oitava série? Who knows? =P

Bjo.

Rachz

Maylah disse...

AI QUE LINDO, THI...
Amei...

Simples e profundo...
TAdinho dos dois Ç.ç

Vinício dos Santos disse...

aah a inocência
tão boa quando a gente tem, tão melhor quando a gente perde...
(viva a sociedade embrutecida, hahah)

Arthur Malaspina disse...

É vivam os johns maclaines da vida!!

Belo texto!

Arthur Malaspina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ariadne Celinne disse...

Bom texto, mas isso me lembra o quanto as crianças estão precoces... isso me deixa deprê.
:x

Anônimo disse...

OI Thiago,
Adorei seu texto mas, tô na dúvida... sei que tudo aquilo que um escritor escre é um misto de sua observação e vivência... ou não! (como diria Caetano) então seus textos é relatos da sua vida ou da sua imaginação?
Como só conheço o que escreve fica estranho fazer essa separação.
OU eu estou louca em querer separar vida e obra?
hA sei lá?!!!
beijos
Maíra