sábado, 13 de outubro de 2007

Carta a um tormento

Você,

Eu penso em você do mesmo jeito que eu penso no trovão que vem depois do relâmpago: é um estrondo, um estrago em algum ponto que proporciona uma visão fantástica e ameaçadora. Você é um tipo de catástrofe bonita, um raio que incendeia uma árvore completamente verde e frutífera na floresta.

Porque você tinha que aparecer? Minha agonia deslumbrada é toda fruto daquela visão idílica que eu tive de você no primeiro dia, aquele ar novo que você me inspirou e me desregulou de um tanto que com quinze minutos de conversa eu queria agarrar você e conhecer cada pedacinho do seu corpo.

Mas daí nos dias seguintes você ficou feia, me contou do seu namorado, e eu suspirei de alívio meio à revelia, porque como já havia dito Machado de Assis é melhor cair do segundo andar do que do vigésimo.

Só que você me atacou e me tocou: a sugestão fraca voltou a ganhar corpo e eu voltei a reparar no teu corpo, que enfim se instalou na minha cabeça, que se divertia com a sua. Você me diverte sendo um alvo grande do meu senso de humor maníaco e rindo dele e me dando corda – e nesse meio tempo me abraçando, que é para não me deixar esquecer que você me atrai fisicamente.

Eu não te vejo como a perfeição – o que explica porque suas qualidades me inebriam tanto. Seus defeitos estão naquele grupo dos intoleráveis, mas dos seus eu faço graça e tento não pensar. Você não é a mulher da minha vida – pelo menos não dessa vida – mas deve ser a mulher do meu hoje.

Eu gosto de você sincronicamente. Fora do espaço e do tempo, sem passado e sem futuro – e naturalmente sem presente – você é a companhia ideal, aquela que eu gostaria de ter não só nos braços mas na minha frente para me ouvir e me fazer ouvir. Eu não gosto de ouvir do seu passado, da última vez eu tive um calafrio. Não gosto de saber como você é longe de mim.

Já vi uma história como a sua se cruzar com a minha e o resultado foi terrível. Você é a repetição de algo que já me aconteceu, mas eu começo a achar que o meu passado foi um treino para você. Não sei se você é a chance de consertar minha última falha ou o convite irrecusável de evitar esse conserto.

Não queria gostar de você, eu leio “problema” no teu semblante moreno todos os dias. Quanto mais perto de mim você chega, mais as letras cintilam e eu repenso tudo e me entendo e vejo que a água dessa enchente está subindo – e que logo logo eu me afogo.

Por favor, arrase pouco comigo.



3 comentários:

Arthur Malaspina disse...

Estamos todos tão doloridos ultimamente não?

"Você não é a mulher da minha vida – pelo menos não dessa vida – mas deve ser a mulher do meu hoje."

Mulheres do meu hoje são tão freqüêntes né?

Belo texto!

Leandro Durazzo disse...

principalmente porque temos 365 "hojes" por ano
enquanto vida, só temos uma.

Arthur Malaspina disse...

Realmente Leandro, disse tudo!!!