sábado, 20 de outubro de 2007

O Marido Distante

baseado no conto Traído por ser bom de Nelson Rodrigues

Teve diversos amantes. Não que fosse afeita à traição, porém a incrível bondade do marido a irritava. A tal bondade era tanta que diria-se estava mais para uma incrível distância.

Este amante de agora era o único no momento. Estava talvez tendo com ele um casamento verdadeiro. Explico. O tal amante era mais seu homem que o marido, o tal amante tinha ciúme dela e a tratava rispidamente quando pensava merecido. Já o marido era tão distante.

O marido era um caso a parte. Porém antes acho que devo apresenta-los devidamente: a esposa era Carla, o marido era Jonas, o tal amante era Márcio. O que se passava era que desde que conhecera Jonas, ele estava escrevendo um livro, um gigante de mil e tantas páginas. Desde o namoro ele sempre fora distante, porém antes havia, ou pensava-se que havia, amor. Depois do casamento o sentimento arrefeceu. Sumiu tudo...e por último sumiu o respeito pelo marido, e surgiram os amantes. Hoje era apenas Márcio.

Ela odiava Jonas pela distância e pela incrível bondade."Vou sair"..."Tudo bem". Isso as duas da manhã. Voltava as seis com o batom todo manchado e cheirando a suor. Ele escrevendo a sua bíblia. Era tão disperso que chegou a deixar de reparar em chupões no pescoço que ela pedia desvairada para que os amantes fizessem. Agora tinha só Márcio.

Márcio a bem da verdade não queria nem morto que Carla largasse do marido para ficar com ele. Era na sua opinião a mulher perfeita, além de linda não tinha que ser sustentada. Carla gostava demais de Márcio, mas a verdade é que não pensava em mais nada que não fosse a idiotice sem limites do marido. Não se conformava, por isso exagerava, por isso chegava tão tarde e nem tentava mais disfarçar a traição. Jonas por seu lado dedicava-se exclusivamente ao seu livro.

Cada vez mais Carla passava dos limites, saia à luz do dia, no meio da rua com o amante, de braços dados, em meio a muitas carícias. Jonas apenas escrevia seu livro. Era bom, muito bom. Era tão distante.

Um dia Carla chegou em casa, as três da manhã, com os cabelos desembrenhados, batom borrado, cheiro de suor e perfume masculino no corpo. Jonas estava sentado na poltrona, na sala. Disse:

- Isso são horas?

A mulher incrédula perguntou:

- E seu livro?

- Terminei!

- Terminou?

- Sim!

A fúria era visível nos olhos do marido, nunca antes ele a havia olhado assim. Ela começara a chorar.

- Terminou? Dizia incrédula...

- Terminei. Disse baixinho outra vez, logo antes de começar a chuta-la.

Chutou-a até a morte, e ela não reagiu, só gemia e dizia:

- Perdão. Ou então: Desculpa.

No fundo ela pensava que gostaria de ler, antes de morrer, o livro do marido.





2 comentários:

Vinício dos Santos disse...

zero!!!
mas agora tem um!

piadinhas a parte, o conto é bem legal, eu jah tinha lido ano passado

Arthur Malaspina disse...

Você tá mesmo querendo que eu comente o seu!!