terça-feira, 23 de outubro de 2007

Quatro Vozes

A Rafael e Cássia

Quando eu e o Dudu sentamos na rua em Feira de Santana, logo depois dele ter voltado da Austrália, nós conversamos como se fosse a primeira vez que nos víamos. Lembramos quando nos encontramos, de nossa produção literária e dos sonhos que nós teríamos de construir juntos, eu, Dudu e Rafael. Até saímos no jornal um dia.

Nós éramos jovens ainda, eu ainda não tinha a história da Giovanna, e morria de amores pela Mari, veja como o tempo passa; e enquanto eu me lamentava em São Paulo do amor de alguém que nunca me amaria, e Dudu, como uma máquina, beijava mais mulheres que o próprio Casanova, nós dizíamos que tudo que queríamos, de verdade, era um amor como o que tinha o Rafa.

O Vinícius de Morais dizia que poetas não devem falar de seus amores, e sim de outras mulheres, e eu sempre entendi isso como uma forma de dizer que na poesia o falar de amor nem sempre é amar alguém; e que o amor de verdade, aquele do "de tudo ao meu amor serei atento", é como um segredo embaixo de um guarda chuva que deve ser saboreado as escondidas.

Mas o Rafa não tinha essa moral Viniciana, ele cometia o pecado de amar em vida e declamar nas ficções. Ele poderia insistir que não, fingindo ser um contista boêmio a la Bukowski, mas no meio de suas vastas ficções, eu e o Dudu sempre notávamos as palavras que ele escrevia só para ela ler. Aquelas cartas de amor de um romântico incorrigível que ele insistia em negar, para manter a pose blasé. Até um dia que não deu mais, ele teve que assumir.

Ele escreveu os textos mais bonitos para ela. Porque ao contrário de mim, fudido com amores imperfeitos, ao contrário do Dudu, nosso Don Juan, e dos poetas do passado que já escreveram sobre amor, nós podíamos além de ler suas palavras, sentir que quando, e isso também é Vinícius, os olhos dele olham no dela, não existe mais ninguém no mundo exceto aquele dois.

Foi no bar, eu acho, em frente ao Catorze, que ele chegou animado com a notícia. Eu me lembro de dias antes ter comentado com o Dudu que queria escrever uma carta ao Rafael, uma espécie de profecia dizendo o que eu poderia prever sobre o futuro de meus amigos. Eu disse a ele:

"O Rafa vai fazer sucesso, descobrir que o sucesso é uma porcaria e fede, e virar um desses escritores obscuros que dão uma entrevista fantástica uma vez por ano. Vai viver recluso com a Cássia em uma casa de campo, recebendo amigos íntimos apenas, e escrevendo em uma velha máquina de escrever, só porque ele vai achar que assim um escritor é mais digno". E ai começamos a rir sem parar, "digno", o Dudu repetia, "desde quando escritor é digno", e tomando mais um gole de cerveja completava, "digno é o cacete".

E aí, dias depois dessa conversa, de minha vontade de fazer a profecia, "É Ela", ele nos disse. Naquele momento em que nossas memórias se lembravam desde a primeira vez que ele nos contou sobre ela e em nossos corações batia aquela coisa de "porra, ontem tão pequeno e quando a gente vê o cara já cresceu, descobriu o amor de verdade, virou escritor famoso, siri recheado e o cacete".

Eu conheço a Cássia daquilo que ele nos diz, e cá entre nós, ele fala dela pra caramba. É tanta história que, confesso, eu não saberia contar todas. Acho que a vida tem um pouco disso, você conhece uma garota e quando vê bate aquela coisa no peito que te avisa que é com ela que você quer passar o resto da sua vida, que é pra ela que você quer entregar os manuscritos de seus romances e dizer, "leia e me critique, porque sei que só você vai ser sincera".

Ontem mesmo ele comemorava os dois meses de namoro e, quando a gente vê, ele chega no bar, nos mostra as alianças com aquele puta sorriso bonito que esse cabra tem e, puxando uma cadeira, vai dizendo, "É ela".

A Cássia vai ter coisa pra aturar também. Os correios vão abrir filial na casa deles de tanto receber pacote de livros, porque esse cara lê sem parar; eu posso até afirmar que 1% da renda das livrarias virtuais sai do bolso do Rafa. Ele tem no quarto dele uma espécie de estante viva de tantos livros que foram se amontoando, e no meio deles, aquela coleção de porta retratos dos dois. Eu gosto de uma foto que ele morde a bochecha dela. Não sei por que, me dá uma sensação de paz; é aquele amor que você quer pra você, pros seus filhos, o amor que sua avó teve pelo seu avô, amor de verdade que quase não existe mais. É o tipo de amor que me faz concluir que todos meus relacionamentos foram uma merda, foram tudo, menos amor. E enquanto eu afirmo isso, o Dudu, já bêbado, parece balbuciar qualquer bobagem e concordar comigo.

Mas é bom, eu não costumo ser um homem que diz palavras belas porque a vida já me aleijou bastante, acho que aceitei minha cegueira como ninguém, viver se achando ruim me diverte porque assim rio de minha própria condição, sabe? Serve como boa desculpa pra se acomodar e não dar a cara à tapa.

Mas eu sei que o Rafa e a Cássia são como uma fagulha de esperança que há em mim, porque eu aqui do outro lado do país sinto uma puta felicidade só de falar dos dois. Eu sinto o amor deles aqui mesmo nesse calor infernal de São Paulo e fico feliz, eles me fazem sorrir, porque, ah, nem precisa dizer a felicidade que desejo pra eles, né?

Se tudo tem um lado ruim, saber que esse cabra vai longe, vai ser importante, capa de revista e tudo mais, é saber que ele vai fazer falta. Que um dia talvez ele possa nem retornar minhas ligações, e eu ser um daqueles escritores que conta sobre seu passado como uma forma de lembrar que houve um dia uma vidinha vivida miseravelmente, nem fracasso total, nem sucesso absoluto, um meio termo. Mas daí ao menos sobra a memória, os porres do Dudu, as piadas na madrugada em Bauru, Feira de Santana, João Pessoa, Araraquara, Austrália, Salvador, Brasília, São Paulo.

Engraçado, uma memória puxa a outra e lembrei de um vídeo que fiz pra escola quando me formei no terceiro ano. Nós entrevistamos todos os professores e os funcionários, e um deles disse uma frase que agora me recordo, "Que vocês sejam felizes e que se lembrem de mim".

É, eu tenho medo que o Rafa me esqueça, não dá pra perder um amigo raro, desses que se encontra poucas vezes na vida. Mas mesmo se acabar ele sabe, que daqui a gente tá sempre botando fé, sempre na pressão em cima de seus textos para ele evoluir mais e mais, tendo aquelas conversas de irmão mesmo. É, nessas horas a gente esquece de tudo que é ruim e pensa, talvez a vida tenha seu ladinho bom.

Vai lá, Rafa, vai ser um anjo torto, porque ser comum não tá com nada. Vai lá, enfrente infinitos palcos azuis, sem medo. Você sabe que se precisar eu estou aí em um piscar, mas por hora me esquece e vai. E como se diz no bom jargão do teatro, "merda pra você".

Bauru, Sábado 13 de Outubro de 2007


4 comentários:

Rafael disse...

Muito foda, meu caro. Ainda mais com um personagem como eu e tal. hehehe Cássia vai ficar toda boba. Muito obrigado mesmo. Jamais retribuirei tal honraria, não tenho cacife para tanto. Fui!

Cássia disse...

Fiquei (estou) toda boba mesmo. Foi uma surpresa, ver (ler) o carinho que demonstrou pelo Rafael, por mim e por nós. O tempo passou rápido, ontem dois meses de namoro, hoje quase três anos. E você foi testemunha da minha história com o Rafael. Concordo com você, quando comenta sobre a foto em que ele morde minha bochecha. Não sei porque, mas ela também é minha preferida. Agradeço de coração o desejo de felicidade, as palavras de carinho, o texto. É uma honra - com diz Rafael: "Show de bola". Não se preocupe, o convite de casamento será enviado (você está na lista dos vips), sua presença é mais que necessária. Até mais, ou até lá. Mais uma vez obrigado. Beijos. Sucesso a você e felicidade, o segredo está nos detalhes. ps: e que serei esposa de um escritor famoso, isso é fato ;)

Anônimo disse...

Putz....
Me deu uma saudade do 3 vozes... vcs eram excepcionais juntos.... e agora me provam que tm o são separados...

beijos
Maíra

Arthur Malaspina disse...

Bela ode... acho que é isso que é o texto...