quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Retrato de mim-mesmo-outrora

"Há quedas que provocam ascensões maiores."
William Shakespeare

Apresentação da Personagem, que neste caso não é uma máscara

Eu uso óculos, sempre usei. Não sou e nem nunca fui popular no conceito primordial desta palavra. Chamo mais atenção hoje do que chamava antes, mas pura e simplesmente por que parei de me preocupar e aprendi a amar a bomba.

Nunca fui um grande aluno, sempre fui competente no que me interessa, só. Nunca me considerei grande coisa, porém nunca considerei a maioria das pessoas grande coisa. Nunca fui triste, porém sei que ser triste é talvez, mais facil que ser feliz. Ser feliz é metáfora. Nunca tive vontade de me matar, nisso fui diferente dos outros "adolescentes estranhos como eu fui". Nunca tive jeito com as mulheres, e nisso me parecia com os "adolescentes estranhos como eu fui".

A história em si

Na minha quinta série eu não era muito diferente do que sou hoje, porém na minha quinta série eu era diametralmente oposto ao que sou hoje. Não me reconheço naquele garotinho, mas me sinto até hoje aquele garotinho. Observando 12 anos mais velho, aquela criança de 10 anos, me vejo e vejo os erros todos que cometi e cometeria de novo. Não fui uma criança popular. Nunca joguei bola. Nunca fui bom em queimada. Nunca fui grande aluno. Nunca brilhei em nada. Lembro-me de poucas coisas dignas de nota na minha quinta série.

Certa vez minha professora (o nome dela era Eliana, dava aula de português) pediu um trabalho sobre Monteiro Lobato. Parte deste trabalho era um jogral ou uma peça. Meu grupo escolheu fazer a peça. Era um trecho de Reinações de Narizinho, aquele em que o Visconde de Sabugosa visita a Emilia para ver se ela poderia mesmo casar com o Marquês de Rabicó. Eu fiz a Narizinho, e me vesti de Narizinho, e decorei minhas falas. Só eu fiz isso em uma sala de 40 alunos. Nunca entendi bem o porquê. Usei um vestido da irmã de um amigo meu (que fez o Rabicó, acho). O menino que fez a Emilia, que não me lembro bem do nome, usou apenas uma peruca e leu seu texto, muito mal diga-se de passagem. Todos os outros leram. Minha apresentação não teve nada de mais, teve outra que pela minha memória foi melhor que a nossa, mas mesmo essa não teve nenhum garotinho psicótico que se vestiu de Narizinho. Eu era uma criança estranha. Continuo sendo, criança e estranho. Ainda hoje me vestiria de Narizinho, e ainda hoje decoraria meu texto. Ler não basta, nunca bastou pra mim. Fazer, apenas, nunca bastou. Talvez estivesse ali, há doze anos, uma criança estranha, uma criança que queria ser vista mas não era, a não ser em extremos. Uma criança que talvez até hoje, quer ser vista. Uma criança que virou um adulto frágil, um adulto que não mais passa despercebido, e ainda se faz visto pelos mesmos motivos, das mesmas maneiras.

A epigrafe deste texto é muito verdadeira, mas me permito contestá-la. Já caí muito mas até hoje nunca bati a cabeça no teto, como o ditador naquele filme do Chaplin. Talvez essa hora chegue, quem sabe.





4 comentários:

Leandro Durazzo disse...

depois perguntam
ainda
por que diabos montamos um blog.

Ariadne Celinne disse...

Vocês se superam... Muitooo bom esse texto. Parabéns ao garoto que se vestiu de narizinho na 5ª série ^^!

Dani disse...

Vc nao teria uma foto vc vestido de Narizinho???

Obs, demorei mas li o seu texto e gostei!

Thiago Augusto Corrêa disse...

É, a foto de narizinho fecharia esse momento depressivo que foi nosso recordar de quinta série.