domingo, 18 de novembro de 2007

I want to break free

(...)

Finalmente ele estava no que parecia ser o salão principal. Ao fundo da sala, presos cada qual em seu infinito claustro de terror e aço, Rajit e Aida observavam. A Rainha sorria indolente, vendo a todos, do canto em que estava. Ao seu lado, Júlio, seu marido, parecia distraído e ameaçadoramente inofensivo.

- Pela terceira vez aqui, então? – rompeu o silêncio, a Rainha – Pretende novamente se perder nos descaminhos deste reino? Ou, quem sabe, trouxe outro amigo seu para meu claustro?

Ed notou que Rajit se mexia. Furioso, desesperado, triste. Sem esperanças. No fundo, ambos sabiam que sua captura não fora culpa de Ed – mas, mesmo sabendo, o velho indiano parecia mostrar outra certeza. Estava preso e morreria.

- Vim buscar quem me foi tirada. E esta, nobre Rainha, é minha quarta incursão neste teu reino.

A mulher olhou para Ed, um tanto confusa. Ele continuou:

- Quando Aida se perdeu, andando inocente por estas tuas trilhas traiçoeiras, meu coração estava com ela. E, embora tenhas desnudado de minha amada todos seus trajes, pertences e palavras; todos seus sonhos e pequenas esperanças, meu coração permaneceu – por força desta senda interminável que é a vida – oculto em seu peito.

O aço que prendia Aida escorreu pela pele lisa de seu corpo e formou poças sobre o chão, junto ao terror daquele instante. Como diamante, a pequena menina brilhou e caiu, de joelhos, aos pés da Rainha que não mais sorria. Ed estendeu a mão, e o corpo de Aida suavemente flutuou (sua pele lisa branca e linda, e seus cabelos dourados como sol – o Banido dali do reino). O amor por Aida abraçou seu corpo como um manto de textura delicada. Ed não sorria, mas encarava a face irada da Rainha.

- Tome seu coração – e a alma de Aida, saindo de seu corpo e o transfigurando, irradiou a luz que tornaria Júlio cego. As mãos da Rainha desenharam no ar símbolos complicados, enquanto do peito da menina era retirada uma refulgente pedra rubra. Aida tombou ao chão. Conforme um sorriso se formava no rosto da Rainha, Ed acudia em seus braços sua amada.

- E, com ele, saia daqui para sempre – a Rainha bradava, vendo o corpo de Aida pouco a pouco se desmanchar em pó. Ao levantar e encarar a mulher severa por mais uma vez, Ed deixou a seus pés o pó da cor do som de Aida (dele tinha origem um belo conjunto de sorrisos que dançavam e, céleres, corriam para longe).

A vontade era de chorar, mas conteve as lágrimas antes que chegassem aos olhos. Permitiu apenas um soluço breve, que abriu suas palavras:

- Não há segredo nem mistério nessa estrada. Para onde foi Aida, que agora possui os pés no céu, só saberei quando seguir a trilha que seu riso já, desde agora, deixa para trás. Teu olhar não me intimida, nobre dama, e tuas garras não me ferem. Pelas beiras de teu palácio muitos desventurados são colhidos. Mas não sou um deles.

Passou a vista por todo o salão. Viu na face da Rainha apenas sua imagem refletida, e dali não se erguia nenhum ruído, sorriso ou cor. O velho Júlio jazia ao lado, desacordado, e de seus olhos brotavam dois finos canais de sangue. Observou Rajit, atônito, preso ainda, e para sempre. Sua expressão sofrida marcou em Ed uma ferida que nunca cicatrizaria.

- Sou teu súdito, minha Rainha, pois assim todos são. A ti está entrelaçado meu futuro, destino e vida. Mas meu coração ainda não é teu.

E seguiu com a pedra rubra em mãos, o caminho que levava do palácio à caverna, e depois até o bosque, e à floresta. Dali, cruzando o rio, esteve em Londres e no sul da existência. Pisando em nuvens, conheceu prisões secretas e reinos, e andou, e anda, e andará, até o fim dos tempos.

Com seu coração na mão e a face refletida pela face da Rainha.


3 comentários:

Arthur Malaspina disse...

Bela fábula... de certa forma faz par com o texto que publicarei na terça...

Juliana disse...

"O amor por Aida abraçou seu corpo como um manto de textura delicada" expressoes bonitas...

Vinício dos Santos disse...

eu gostei do clima de Reino de Etérnia que você deu pro texto, rs