domingo, 16 de dezembro de 2007

Um diálogo

- Mas... mas... o Senhor não pode fazer isso! – disse um dos membros da oposição, naquele tom sempre assustado.
- Por que não? – Deus quis saber, embora não precisasse mesmo discutir com ninguém ali.
- É desperdício fazer alguém com tanta qualidade assim – outro opositor arriscou.
- Nah, é nada – Deus fez uma careta. Ouviria todos os argumentos porque nada mesmo O faria mudar de idéia.
- As pessoas vão desconfiar dela, Deus – um terceiro entrou na discussão – vão saber que o Senhor existe!
- E qual é o problema disso? – Deus o direcionou um olhar óbvio tão cínico que aquele membro pediu transferência na semana seguinte – está decidido, eu vou fazê-la.
- Mas Deus... – o gerente das verbas precisava impedir aquilo de alguma forma, porque na certa comprometeria o orçamento – e se a gente tirasse algumas coisas dela...
- Não – Ele respondeu sem mexer um músculo, mas em seguida lembrou-se de que deveria dar o exemplo da paciência – como o quê, por exemplo?
- Talvez... talvez se o Senhor a fizesse menos bonita – o gerente tirou um papel do bolso, cheio de estatísticas – além de ser muito caro, o Senhor sabe bem que bonita desse jeito ela vai acabar gerando discórdia na Terra, quem sabe até uns acidentes de trânsito...
- Hummm, não – Ele sorriu – a beleza dela serve justamente para isso, para atrair a atenção das pessoas. Sabe, é como pescaria – adorava usar aquelas metáforas – você precisa de uma isca para atrair o peixe, ou você já viu algum peixe morder um anzol de metal?
- Er, bem, o Senhor tem razão – o gerente respondeu – mas então vamos fazer um corte nessa parte da inteligência, a menos que o Senhor espera que ela se torne presidente, toda essa carga não é necessária.
- Ah, discordo – Deus continuava com a sua postura etérea, na tentativa de desanimar seus oponentes e fazer logo o que queria – eu quero que ela seja a melhor no que for fazer, a humanidade anda precisando de gente assim – fez uma pausa e depois abriu um sorriso – além do mais, já me encheu essa história de que eu só consigo fazer mulher bonita sem nada na cabeça – no mesmo instante, dois membros da oposição começaram a assobiar distraídamente.
- Tudo bem, tudo bem – o gerente assentiu com a cabeça e grudou os olhos no papel das anotações outra vez – vejamos aqui… o Senhor preencheu por completo os níveis de Carinho, Amizade, Preocupação, Afeição e Conquista... Deus do Céu, se ela já vai ser inteligente e bonita desse jeito, não precisa de tudo isso! E o Senhor sabe muito bem o quanto essas coisas custam para gente!
- A-há, você chegou onde eu queria! – Deus sorriu tão forte que seus olhos se comprimiram – você viu o que eu marquei no fim da folha?
- O quê? – o gerente correu os olhos até o local indicado – é a parte do “somente para escolhidos”?
- Exato! – Deus confirmou com o polegar levantado – como eu sabia que vocês iam tentar me impedir, eu coloquei essa cláusula: se ela for impecável só com algumas pessoas, a gente economiza aqui em cima – o gerente se deu quase por vencido – além do mais, se ela for perfeita com todo mundo, daí sim nós teríamos o caos.
- E quem serão esses escolhidos? – o gerente perguntou para completar as formalidades.
- Então, ela vai decidir – Deus respondeu – mas eu coloquei umas coisas no código para ela dar preferência para aqueles que conseguirem enxergar para além da beleza e da inteligência.
- Hum, está bem – o gerente finalmente se deu por satisfeito. Sabia que aquela loucura de Deus iria comprometer o orçamento por dois meses e que por causa disso ele teria de economizar, gerando uma penca de pessoas chatas e feias e burras, mas tudo bem. No fundo ele também gostava da idéia – o Senhor já tem um nome para ela?
- Opa, claro! – Deus pegou um pedaço de papel e escreveu, já antevendo a reação de seu assessor – este aqui, olha.
- Deeeus! – o gerente olhou para Ele num misto de complacência e desistência – o Senhor não tinha um trocadilho menos óbvio para fazer? Não é porque deixaram de ter latim na escola que as pessoas não vão saber o que isso significa.
- Ah, nem ligo – sorriu outra vez – agora vamos logo que eu quero começar isso ainda hoje. E deixou a sala, feliz da vida.

Não sei dizer se isso aconteceu de verdade ou não. Mas que eu fui um dos escolhidos, isso eu fui.


6 comentários:

Leandro Durazzo disse...

cristão legal, eu diria (e quem for bom de trocadilho, que o troque)

Vinício dos Santos disse...

nha nha nha, errou, errou!!!

Arthur Malaspina disse...

Muito legal seu texto!!!! Mas copiou um título meu!!!!

http://quatropatacas.blogspot.com/2007/08/um-dilogo.html


Como se eu tivesse sido o primeiro a usar esse título na história!!!

Anônimo disse...

stella

iris disse...

ha, muito bom!!
ótimo :)

Juliana disse...

muito bom!!!