quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Voz própria

Leandro Durazzo difere muito de nós três, os outro patacas. Temos em comum o amor pela literatura e a necessidade de tentar escrevê-la. E temos de diferente o teor dos textos. Leandro adrentra sempre por um mundo de non-sense, de irreal, de absurdo, mítico e místico, e por vezes até religioso. Algumas vezes faz textos engraçadinhos e com a simples intenção de causar riso; não é o caso do texto que analisarei neste "artigo". Dentre todos os seus textos, escolhi o que mais me agradava, mesmo correndo o risco de fugir do tema básico do autor. O texto se chama Cara... passa, isso tudo e foge do tema ao não expressar o absurdo que esperamos de Leandro.

O texto tem uma temática simples, um homem, que é o narrador, que observa o ciclo de vida das tartarugas. O que o faz um texto especial é a beleza com que as palavras cantam a odisséia dessas tartarugas. "Deixa pra trás o ovo, encavado, deixa pra trás a vala, segue na direção daquela velha vela que cruza o mar." Esse trecho por exemplo tem uma sonoridade incrível, e essa sonoridade é o que Leandro procura sempre em seus textos e que aqui encontrou melhor. Se antes seus contos pudiam parecer que buscavam algo, aqui esse algo me parece bem mais próximo, bem mais palpável. O texto não nos faz parar pra entender alguma construção complexa, as construções complexas existem, porém não temos que entendê-las, elas são naturais e neste ponto mora a importância deste conto para toda a produção de Leandro.

Disse anteriormente que o conto se distancia da temâtica normal do autor, mas será que se distancia tanto assim? Vejamos. O conto narra, pelos olhos de um observador apaixonado, as dificuldades de seres muito distantes de nós. As tartarugas deste conto são exatamente como as rainhas mágicas de outros contos, são estranhas ao nosso olhar. As citações míticas ainda permanecem, como por exemplo: "Pensa na grande tartaruga que, sobre a carapaça, sustinha quatro elefantes. Pensa que além disso, além desses paquidermes – de tamanhos de meu Deus! -, o velho quelônio cósmico carregava, por entre estrelas, um imenso tabuleiro de humanos e emoções." Ele emprega aqui uma liricidade imensa à cena e estabelece uma mitologia que dá importância a trajetória aparentemente fugaz destas tartaruguinhas, e faz isso de maneira tão bela, que deixaria Pratchett orgulhoso e agradecido pela homenagem. O texto louva esse ciclo natural, e jamais interfere nele. Esta tudo em sua ordem: nascimento, superação e perdas, "Agora pra trás ficou a areia toda, eternidade, ficou o ovo chocado, ficaram os irmãos mortos, ficou a paz do subsolo".

Acredito que todo autor tenta sempre procurar uma "voz própria", e que só ganha relevância quando efetivamente consegue essa "voz própria". Ninguém aqui no Quatro Patacas chegou nem perto de conseguir, porém é visível as mudanças dos texto com o passar do tempo. E os passos que se dão em busca de seu próprio estilo. O passo de Leandro foi esse. Esperamos por outros.





5 comentários:

Juliana disse...

Ou...então... eu achei muito estranho quando vcs comecaram a comentar os textos. Até q não comentei nenhum, mas, o comentário do Arthur ficou muito bom...gostei mais... É muito complicado comentar um comentário, por isso nem vou falar muita coisa.
ah! a apresentação de vcs ficou muito legal!

gerald disse...

Talvez devamos buscar os ecos de nós mesmos; nos reconhecer um no outro. Essa é uma forma de encarar o mundo... que nos ignora. Os homens estão soltos no mundo (para povoá-lo - como alguém aqui falou) pois vamos povoá-lo: de poesia, de amizade, de amor, de ação. Sejamos a soma de nossas certezas. Mando por aqui um abraço aos 4. Escolhi esse lugar, poque acho que ele representa, através do texto do Leandro, e da escolha do Arthur, toda a delicadeza com a qual podemos nos deliciar; ou como diria Baudelaire: é preciso que vos embriagueis; de vinho, de virtude ou de poesia, o que desejardes; não importa, contanto que vos embriagueis...

Arthur Malaspina disse...

cara... esse aí de cima tá cheirando a fake do Leandro...

Alisson, o Exec disse...

De boa, analise preconceituosa pra caraleo e não apreende toda complexidade, sabedoria e vivacidade dos versos em prosa do Leandro e suas características temáticas são relegadas a incompletude,como se a busca e a alienação em conceitos e desdobramentos míticos tivessem carater negativo, quando - no entanto- estamos lidando com um autor em constante mudança, diferente do homem que vive a vida como se escreve um livro, que quando se acaba o entrega aos vermes quanto defunto(analogia machadiana) mas de um ser que vive em movimento e se transforma em sua antropofagia simbiótica com conceitos, coisas e pessoas - saboreia os pensamentos ao invés de rumina-los !

De boa, receio que analisar textos de autores como Leandro apenas através de texto pelo texto é um engano cristalizado no inverno acadêmico, é necessário respirar ares do verão e da primavera, ver os infinitos desdobramentos de diversas cores.

Qual o sentido de uma árvore? talvez nascer, crescer, se reproduzir e morrer... mas seus frutos alimentam diversos seres vivos, que ajudam a arvore se disseminar, e os próprios cadaveres alimentam mais arvores, chamam fungos e bacterias que auxiliam no processo de fixação de alimento nas raizes, que faz a arvore crescer e retroalimentar todo ciclo novamente - é toda uma teia da vida respirando num unissono, esses são os textos de Leandro, não árvores isoladas.

Arthur Malaspina disse...

"De boa, receio que analisar textos de autores como Leandro apenas através de texto pelo texto é um engano cristalizado no inverno acadêmico"


De boa... você é retardado?