segunda-feira, 14 de abril de 2008

Natália

Natália chorou novamente esta manhã, não me perguntem por quê. Questiono sua crise há semanas e ganho em troca um sorriso de mesura, sem afeto. Vivo há tanto tempo dessa maneira que não consigo me lembrar dos tempos dos porta-retratos da casa. Eu tinha uma família, ainda me lembro, filhos, pais, festas de natal.

Hoje ela deita ao meu lado, na mesma cama, sem estar no mesmo espaço. Vira de lado, não me olha nos olhos, sem carícias, nem bom dia. Apenas banho e café para o trabalho.

E de um homem que não pode chorar, me entreguei às lágrimas, a loucura, a bebida, mas nada satisfez o seu silêncio. Aos poucos me tornei inimigo em meu próprio lar, não tenho mais alimento, apenas um sabor acre na boca.

Era Abril quando começou. As luzes da casa acesas, ela que chega depois de mim. Um copo de vinho, as sobras do jantar ainda na mesa, e seus olhos repleto de lágrimas. Ainda lembro dos sorrisos, da felicidade ao seu lado, não mais. Agora tenho a felicidade em algum lugar, o prazer dos congelados que como sozinho, pois ela nega meu alimento e minha companhia.

Desperto com suas lágrimas antes do relógio tocar, antes do café. Lembrando-me um romance antigo que lemos na adolescência. Mas os dramas não são tão bonitos quando a história triste retrata sua vida. As fotos parecem mais descoloradas, o rosto no espelho é só um quadro que não pertence a ninguém. O que me pertencia agoniza em silêncio, enforcada pelos nossos anéis.

Achei-me culpado, mas hoje sei. Ele estava lá desde o início, antes de nós, de sermos felizes. Repleto de falsas intenções, destruindo aquilo que me era sagrado. E agora Natália chora. Pelo tempo que não pode ser salvo, fraca demais para me pedir perdão.

Sexta Feira, 11 de Abril de 2008.


3 comentários:

Leandro Durazzo disse...

o caminho da escada e da forca...

Anônimo disse...

Putz... que saudades se seus textos..
bj
Maíra

natalia disse...

triste e lindo! parabens!
natalia?pq esse nome?
bjos