domingo, 16 de novembro de 2008

hélio

“Em vigílias sem fim fiquei, o barco/
Rodopiando entre os recifes.

(d’O Navegante – séc. X)


E quando a tudo se desconhece? E quando se dá um passo e de repente o chão
desaparece
sob nossos pés?

E quando o chão é outro, couro, solo de carne de vaca curtida ao sol? Solo distante sem água sem vaca sem chão.

Solo de avião, como o em que a ave pousa. Solo de outra terra, outra terra, sol de outra terra, terra de outro chão. De outro hemisfério, de outro trópico, de outro câncer, de capricórnio, de outra mão.

E quando se dá um passo e o chão se cresce? E te engole? E quando some? E quando cresce, te engole e some, de repente, contigo dentro dele? Pensou nisso, pensou? Sentiu isso, amor? Sentiu?

E quando teus pés que não criam raízes se afundam numa lama suja e distante do pomar de onde saíram? Longe do teu horto, em outro porto, num em que galinhas ciscam milhos verdes de outra cor e onde os grãos de arroz possuem uma estranha, estranha diferença de tamanho. Pra mais.

Onde se usa coentro em tudo que se coma, e nada de salsa e cheiro verde. Saber de carnedesol, de charque, de mandioca que muda de nome e nem mesmo mandioca é. Não é mandioca com outro nome: é outra coisa.

Eu, aqui, sou outra coisa. Coisa nova, coisa nova da qual gosto.

Eu sou,
o sol.


“Nenhum teto
Protege o navegante ao mar entregue.
É o que não sabe o que vai em vida mansa,
Rico e risonho, os pés na terra estável,
Enquanto, meio-morto, mourejando,
Eu moro em móvel mar.”



4 comentários:

eliana disse...

você é o sol em qualquer lugar que esteja meu pitufo! fico feliz por essa frase:

Eu, aqui, sou outra coisa. Coisa
nova, coisa nova da qual gosto.

Eu sou,
o sol.

Aqui, continuamos os mesmos e também gostamos, mas falta sua presença física, o seu sorriso e o seu abraço, se cuida, e não esquece nunca que o amamos muito, muito!

Felinea disse...

aquilo que de mais lindo eu li em ti até hoje.

:)

juro, quase chorei [sem querer ser piegas, já sendo].

um beijo.

Vinício dos Santos disse...

esse é o texto definitivo sobre mudança que eu já li - junta experimentação, ritmo, sentimento, conteúdo

o senhor está muuuuito de parabéns, seu Leandro.

Arthur Malaspina disse...

ÊÊÊ... esse é um dos seus melhores textos!!

Parece que o lado de cima do país te fez bem!!

PS: Esse texto na verdade é um poema... divide ele em versos que você vê...