quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Para Aléxis, do Cavaleiro de Mim Mesmo

“Me tamen urit amor; quis enim modus adsit amori?”.

“Contudo o amor me queima,
E do amor, qual a medida?”

Virgílio Bucólicas II – verso 68, tradução própria.


Nada mais. Nada mais. Por tudo eu vejo sua imagem distorcida, no espelho do banheiro, na cozinha, na nossa cama. Veria tua imagem na rua se ao menos saísse de casa. Nossa outrora casa não contrasta com minha outrora felicidade, que em outros tempos só fazia crescer, por existir, por apenas existir, e agora contrasta com o sol da janela, com o irritante sol alegre e caloroso que me toca as faces. Fecharia as cortinas de casa como venho fechando as cortinas da vida, caso você não as tivesse levado.

Ahh. Respiro teu ar e não gosto disso. Tentei te afastar, tentaste também sumir, mas sumir é muito mais difícil do que simplesmente permanecer. Tanto tempo ao meu lado e talvez tão distante, tão longe estavas que era como que se tivesse afastado. Tão pouco tempo longe e tão perto, tão mais perto. Mais do que qualquer um de nós dois poderia esperar. Ahh. Respiro e crio um pouco de vida, me dou um novo nome, me chamo tolamente de cavaleiro de mim mesmo.

Talvez a donzela não mais exista. Era você.

Como vive um cavaleiro sem devoção? Não te tenho, não tive nunca a deus. Tenho só a mim mesmo até que a morte me sublime. Sou um cavaleiro de mim mesmo. Sempre só tive a mim. Nada mais.

Ahh. Mais uma lufada de ar, e é como se refrescasse minhas idéias. Cavaleiro de mim mesmo? Só poderia pensar isso fora de mim, fora de mim mesmo.

Poderia me derramar, me esparramar para você, como alias já fiz muitas vezes, porém você, minha Aléxis particular, continuaria a me ignorar. Claro que tudo isso é uma confissão de culpa e uma confissão de dor e um único e triste panorama do estado da minha alma, mas é talvez mais digno. Não me arrasto mais no chão! Talvez.

Um dia me quiseste? Um dia só talvez? A dor, Aléxis, é a fronteira do real e eu sou tão real quanto o tamanho da minha dor. Qual o tamanho da tua, minha Aléxis? Será tão grande a ponto de fazer sombra a minha? Se for, me desculpe. Se for, peço que me avise e me humilharei e morrerei prostrado por tua dor. Mas ela é tão grande assim?

Um dia foste realmente minha, Aléxis? Ou foi só o sol que bateu em minha janela e me encobriu a face como tem feito ultimamente? Eu penso sempre na eterna possibilidade de te ter, tão eterna quanto possível é a mais profunda eternidade. E mais profundo me torno quando te imagino de novo aqui. E nossa casa fechada e nosso mundo particular. E logo caio de novo no abismo profundo da realidade. E me machuco. E choro.

Ahh Aléxis, como me faz falta teu perfume, como me faz menos homem e mais humano reconhecer isso. Ahh. Respiro a última vez teu ar, a última. Destruirei-te? Jamais! Não existe pedaço em branco no meu coração, não existe nada no meu peito que não tomaste. Me conformo que estais aqui, mesmo não estando. Me conformo que estais mesmo eu não estando ao teu lado. Ahh Aléxis, não mais te respiro, seja porque se continuasse teria uma overdose de ti, seja porque quero, apesar de tudo, continuar a viver-me, então não posso mais continuar a viver-te. Passo agora a considerar esse momento, o momento que deixo de ser você e passo a ser eu mesmo.

Lembra-te, Aléxis, quando antes de nos fundirmos, éramos só nós? Tu me pediste para que eu me recordasse desse momento para que voltasse a ele. Porém minha querida, não se volta atrás, não se recupera um momento. Portanto volto a me ser, porém outro-eu, este tolo realista, o Cavaleiro de mim mesmo.

Eu sou volúvel. Me conhece o suficiente para saber que volto atrás muitas vezes quando o firmado não me beneficia. Não prometo nada.

“Se este Aléxis te desdenha,
Encontrarás outro Aléxis” *

Será?

Eu sigo em frente , porém me reservo o direito de olhar para trás.




* “Inuenies alium, si te hic fastidit, Alexim” - Virgílio – Bucólicas II - verso 73, tradução própria.



Tinha um sério problema em publicar esse texto, pois ele é muito caro à minha pessoa e achava que não estava bom o suficiente ainda. Essa é a terceira versão. Ainda não é a versão definitiva, mas acredito que esteja bem satisfatório. As traduções dos trechos, como já disse na nota, são minhas. Espero que gostem.

5 comentários:

Leandro Durazzo disse...

cara
parabéns pelas traduções
e
pelos momentos de sublime significado
"Eu sou volúvel. Me conhece o suficiente para saber que volto atrás muitas vezes quando o firmado não me beneficia. Não prometo nada."

Thiago Augusto Corrêa disse...

A beleza homo erótica desse texto é sublime.

Claro que sempre vi o texto como uma releitura do mesmo mito, arrisco-me a dizer, com algumas pinceladas daquilo que pensa o autor.

Natalia Scartezini disse...

eu amo esse texto!!parabens beiço!!

Vinício dos Santos disse...

se vc continuar a melhorar esse texto, nós vamos ter um bom pedaço de literatura daqui uns anos;
o lugar dele é nas páginas de um livro, naum de um blog... ele foi feito pra ser sorvido aos poucos, parece que cada instante dele foi feito para se identificar com uma pessoa. Eu, por exemplo, gostei bastante quando se questiona a dor da Alexis.

e isso me faz lembrar uma coisa: naum adianta ser o cavaleiro brilhante se a donzela prefere fugir com o dragão.

muito bom, arthur, muito bom

Arthur Malaspina disse...

"naum adianta ser o cavaleiro brilhante se a donzela prefere fugir com o dragão"

Realmente!!

PS: Ri pacas disso...