quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

no tempo de eu menino

Quando eles descobriram a pólvora, a morte ainda era de brincadeira. E de brincadeira se manteve até aquele momento – e por momentos mais além – em que o menino e seu primo percorriam as ruas da velha cidade. Durante o festim da carne, alheios a tudo, sem aval para festejar sob a bênção de todos os deuses humanos, os meninos corriam, apenas. As pernas avançando o mais que podiam, comendo espaço e chão, paralelepípedos e barro centenários – que só não eram milenares por falta de tempo.

Aquela pedra aquela terra e a corrida sobre elas era tudo que existia desde sempre. Ao fundo, os sons do carnaval escondido, esquecido em algum canto. Ao chão, as manchas negras reluzentes de lua-cheia que passavam rápidas como a hora de dormir. Nas mãos, armas – de brinquedo, claramente, com espoletas vermelhas redondas a equipar a guerra.

Guerra de meninos. Que sorriam ao atirar um contra o outro, esquivando-se e pulando sobre poças clareadas pelas luzes amarelas das desertas ruas de beira-mar. Num prédio branco e azul colonial pararam. O primo subiu, correndo, as escadas secretas da igreja que faria sombra sobre o hotel, se aquilo fosse dia. Mas era noite, e o menino pequeno sentou sobre o degrau - que parecia um sofá, tal o conforto que sentia.

Trocou o cartucho, pólvora nova no cano velho e fumegado. Fechou o tambor e olhou pro céu, ouviu o mar e tocou com os pés descalços de menino aquela terra ao seu redor. Fogo! O primo apareceu num lampejo momentâneo, sacudindo a arma como quem reclama da maldade de um objeto que falha no momento mais urgente. Tiro, grito, riso, numa sucessão de motivos que fez o menino se erguer sobre o degrau. Com sua arma ainda carregada – um tiro só não era suficiente para acabar com tudo – o pequeno olhou novamente para o alto da igreja, para a janela. Seu primo estava ali, não estava? Estava, ele sabia, tinha visto e atirado. Ele sabia, mas não era capaz de ver mais nada além da velha igreja no escuro da noite. O primo não aparecia mais.

Correu, com passos mais velozes que os de toda a noite. Subiu as escadas secretas e chegou a seu destino. Nada do primo. A arma em sua mão parecia mais pesada, quente e viva. Viva. Olhou para o tambor, que sorriu. Sorriu também, o menino, e subiu aos sinos que guardavam o velho Tempo.

De lá enxergou o primo acima, u’a obra-prima de claridade e alma penada. Nu, o menino resolveu voar. Era carnaval, lá embaixo, era Saturnália. Dois meninos voando até a lua não devia ser estranho. E voaram.

Um menino morto, sonho rebrilhante, e um menino nu. Morte e fantasia voando sobre os velhos telhados da cidade acesa.

4 comentários:

Anônimo disse...

Gostei da ideia!


Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

bruno disse...

irado léo!! era quando a gente brincava em Parati!!! com o anel de pólvora vermelho!! haha...perto da Igreja de Santa Rita! Bons tempos hein! Muito bom relembrar isso!

brunamunhoz disse...

Agora vou começar a ler sempre seus textos.....

Marco Randi disse...

Leandro, quais livros tu já lançou no mercado mundial e que viraram best-sellers? Apaixonante!!!